sexta-feira, 18 de abril de 2014

O negro no contexto sócio-cultural do Rio de Janeiro (1870-1920) - O negro e o mercado de trabalho

       Com o fim da escravidão, o negro passa a ter um problema que é buscar seu próprio sustento. O Estado não elaborou uma política de inserção do negro na sociedade e no mercado de trabalho. Num momento de industrialização e da busca de uma modernidade, o país que havia deixado o “escravismo” para entrar no “capitalismo”, não contou com a participação da mão-de-obra, agora livre, negra. Portanto, esse contingente negro busca, por sua própria sorte, uma colocação na sociedade excludente de então. 

Despreparado para o mercado moderno de trabalho e tendo, acima de tudo, grande concorrência dos estrangeiros, os negros acabam por exercer atividades menores e toda a forma de subempregos, incorporando também a massa de desocupados que habitava o centro da cidade e arredores. “No Brasil moderno, as negras achariam alternativas no trabalho doméstico ou seriam pequenas empresárias com suas habilidades de forno e fogão; ou, juntamente com o homem, procurariam o sustento através de pequenos ofícios ligados ao artesanato e à venda ambulante. No Rio de Janeiro abriam-se oportunidades na multiplicidade de ofícios em torno do cais do porto, para alguns na indústria, para os mais claros na polícia, para todos no exército”. (Moura: 1983, p. 43).

A imagem negativa do negro preguiçoso e malandro e que não gostava do trabalho se deu por conta de muitos que ficaram à margem: prostitutas, cafetões, malandros, outros ainda, que ganhavam a vida com o que aprenderam nas festas populares, trabalhando em cafés, cabarés, circos e palcos das revistas. Esses, juntamente com outros segmentos populares, oscilaram entre o subemprego urbano e a marginalidade carioca. 

A participação do trabalho exercido pelo negro marcará definitivamente a história das atividades do cais do porto. Sua participação nas organizações de trabalhadores se dará fortemente, como na Sociedade de Resistência dos Trabalhadores em Trapiches de Café, tendo uma participação maciça dos negros, inclusive em suas lideranças, tendo sido chamada anteriormente Companhia de Pretos.

Durante as obra de remodelação da cidade, o trabalho era oferecido nas esquinas do centro, assim como a seleção dos candidatos. Os negros levavam sempre desvantagem em relação aos brancos. Roberto Moura revela a voz das testemunhas como a de D. Carmem, vizinha das obras na época, que depõe: “quem trabalhava mais mesmo era o português, essa gente, espanhóis, era mais essa gente. Não era fácil, eles não gostavam de dar emprego pro pessoal preto da África, que pertencia assim à Bahia, eles tinham aquele preconceito”. (Moura: 1983, p. 44).

(Continua...)
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[1] Disponível em: http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/historia-da- populacao-brasileira/brasil-um-pais-de-migrantes.php

MOURA, Roberto. Tia Ciata e a pequena África no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1983.

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quinta-feira, 10 de abril de 2014

O negro no contexto sócio-cultural do Rio de Janeiro (1870-1920) - A questão das migrações

A história do Negro no Brasil inicia-se quase que simultaneamente ao descobrimento deste país. Já nas primeiras décadas do século XVI, os negros escravizados no continente africano eram trazidos para o ciclo econômico da cana-de-açúcar. “A partir de 1549, intensificou-se o tráfico negreiro para estas regiões, principalmente em razão dessa florescente cultura agrícola. Em 1559, o tráfico foi legalizado por iniciativa de um decreto do rei D. Sebastião, pelo qual ficava autorizada a captura de negros na África para o trabalho em território brasileiro[1]".

Segundo Helio Santos, do total de 14 milhões de africanos escravizados, o Brasil foi o que mais importou, trazendo para cá cerca de 4 milhões. É claro que esse número muito se amplia quando somado aos nascidos das escravas em terras brasileiras. (Santos: 2001, p. 65). 

O deslocamento de grande contingente de negros acompanhou as mudanças dos ciclos econômicos. Primeiro, no século XVI com a lavoura da cana-de-açúcar, no nordeste, depois, já no século XVIII, com o ciclo do ouro, na Região das Minas e finalmente, com o período do café, no século XIX, no sudeste do país, sobretudo na região do Vale do Paraíba. (Lopes: 1992, p. XIII)

Na segunda metade do século XIX, vários fatores como a crise do café, a partir de 1860, a grande seca do sertão nordestino nos anos de 1877 a 1879, a abolição do trabalho escravo em 1888 e o término a Guerra de Canudos em 1897 contribuíram para que um grande número de negros e mestiços migrasse para as metrópoles, principalmente, a cidade do Rio de Janeiro, então capital do Império e da República que estava por vir, em busca de trabalho e de sobrevivência. Além disso, “entre 1871 e 1920, o Brasil recebeu 3,3 milhões de imigrantes, provenientes da Alemanha, Itália, Portugal, Ucrânia e Polônia[2]", para substituir a mão-de-obra escrava, e também para, segundo uma política “racista” do governo do país e de grande parte das elites, embranquecerem a população.

(Continua...)
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LOPES, Nei. Introdução. In: O negro no Rio de Janeiro e sua tradição musical: partido alto, calango, chula e outras cantorias. Rio de Janeiro: Pallas, 1992.

SANTOS, Helio. A busca de um caminho para o Brasil – A trilha do círculo vicioso. São Paulo: Editora SENAC, 2001

[1] Disponível em : http://ww1.universia.com.br/materia/materia.jsp?id=2852 

[2] Disponível em: http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/historia-da- populacao-brasileira/brasil-um-pais-de-migrantes.php

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quarta-feira, 19 de março de 2014

Bento, que bento é o frade

Quando era pequeno, brincava de "Bento, que bento é o frade". Era divertido, pois o que o mestre mandava, sempre resultava num grande esforço de realização e alegria do dever cumprido. Meu filho, que não brincou dessa brincadeira, típica de espaços maiores que os dos modernos e apertados playgrounds, ganhou o "Todo Pererê" do Ziraldo. Uma coleção de histórias da "Turma do Pererê", no qual se encontra a brincadeira, que o autor fez questão de apresentar para as crianças com menos sorte que seus pais. É conhecido também por "Boca de Forno" ou "Boca do Forno". Em várias partes do Brasil, o jogo é o mesmo, porém com algumas variações dos versos. Os de minha época de criança eram assim:

_ Bento, que bento é o frade
_Frade!
_Na boca do forno
_Forno!
_Tudo que seu mestre mandar
_Faremos todos!
_E se não fizerem
_Ganharemos bolo!

Os compositores mineiros Tavinho Moura e Marcio Borges, ligados ao "Clube da Esquina" e às tradições musicais do interior, compuseram uma canção na qual se utilizam das imagens dessa brincadeira. A música está registrada no LP "Engenho Trapizonga" de Tavinho, lançado em 1982.

"QUE BENTO É O FRADE" (Tavinho Moura/ Marcio Borges)

Põe a mão no leme e vem navegar
Para onde o mestre nos mandar
Tudo que seu mestre quiser nos mandar
Barriga ronca e faz
Dançar com ele no meio do mar
Coragem sempre é bom
Obedecer, navegar
Tudo que seu mestre nos mandar

Quebra essa geleira e vem se queimar
Mesmo que seu mestre não mandar
Bento é o frade pra quem quer brincar
A boca é forno e faz
Brilhar a chama de tudo mudar
Coragem sempre é bom
Acontecer arriscar
Mesmo que seu mestre não mandar

Correnteza me lavou
Me levou, pra não voltar
Pirapora já passou
Juazeiro é lugar de chegar
Muito naveguei
E se o mestre não quiser
É só quebrar
Ganharemos bolo
Ganharemos bolo.



Publicado primeiramente em 22 de dezembro de 2010 no blog Boca do Forno, http://bocadofornohumano.blogspot.com.br/2010/12/bento-que-bento-e-o-frade.html



quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Ainda sobre chuva, seca e amores



A chuva que ora cai sobre meu corpo

E há tempo teimava em não vir

Irriga minha pele e adentra em meus poros à profundidades tais que

Carregada de vida, me sustenta e me consola

Encharca meu ser


Essa chuva tem nome certo

_Te amo molhado e feliz!


Assis Furriel


Aridez



A secura de minh'alma
Implora a chuva do seu olhar

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domingo, 9 de fevereiro de 2014

Cupido, o enamorado deus do amor

Cupido e Psiquê
(Antonio Canova - 1757-1822)
Numa certa manhã Cupido acordou especialmente alegre. Não que não fosse um deus feliz, mas naquele dia parecia que pressentia o que estava por ocorrer. Apesar de sua função ser a divina tarefa de enamorar os pobres mortais e deuses também, tornando tudo mais romântico, ele mesmo nunca havia experimentado o amor. Ele era o próprio. Dele saíam as flechas viscerais que faziam do mundo um mundo romântico possível. 

Já à mesa do desjejum, sua mãe Vênus lhe confiou uma tarefa das mais importantes. Teria que flechar alguém especial. _Ótimo! - Pensou ele, cheio de disposição. _Adoro flechar!

Voltemos um pouco na história para entendermos o que estava para acontecer. 

Vênus, a deusa da beleza e do amor, estava muito furiosa com um acontecimento (sim, porque os deuses da mitologia greco-romana eram tão suscetíveis quanto os mortais). Havia uma princesa, uma bela jovem chamada Psiquê que de tão bela estava “roubando” os admiradores de seus templos que passavam a adorar a jovem moça. Como uma jovem e reles mortal poderia suplantar em beleza e adoração uma deusa? Preocupada, Vênus ordenou a seu filho que este atingisse Psiquê, fazendo assim com que ela se apaixonasse pelo ser mais horrendo do planeta, por um verdadeiro mostro. Cupido não querendo contrariá-la, concordou com a missão. Naquele mesmo dia, à noite, o deus alado do amor adentrou-se pela janela da princesa e bem devagar, sem fazer ruídos, aproximou-se de seu leito e pôde perceber a imensa beleza da qual resultava toda a indignação de sua mãe. Neste momento, atrapalhado por tal beleza, arranha-se com a ponta de uma de suas setas e torna-se perdidamente apaixonado pela moça. Desde então, fagulhas escondidas em seu próprio interior teimaram em ardê-lo com a chama do amor.

É a vingança do amor. O feitiço virando-se contra o feiticeiro! Cupido merece!(*)

                                                            
                                              Assis Furriel


Texto inspirado em “Cupido Enamorado”, poesia de Eliana Pichinine, in: http://versoseanversosfotogenicos.blogspot.com.br/2010/12/cupido-enamorado-flechada-visceral.html

(*) comentário feito no blog da autora.

Um pouco mais do mito: In: http://www.starnews2001.com.br/cupido/cupid_story.html

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segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

O calor de Janeiro

 
Tem sido bem difícil enfrentar a onda de calor dos últimos meses. Desde novembro, passando por um dia, cuja sensação térmica chegou a 50 graus, não me lembro de um calor tão forte. Sensação térmica, nova expressão para a explicação do calor. Já foi El Niño e outros que não me lembro. O mês de janeiro, principalmente aqui no Rio de Janeiro, costuma ser marcado por dias quentes de alto verão, e se caracterizam também pelas chuvas torrenciais que ao passo que refresca a atmosfera, deixam rastros de tragédias, infelizmente, quase sempre esperadas. Porém, neste janeiro de 2014 o tempo se mostrou extremamente quente e seco. Alguma chuva caiu, mas não o suficiente para o refrigério necessário.
 
Não gosto muito de chover no molhado, ou de "secar no árido", mas o fato é que aquilo que sempre foi incômodo, quando torna-se insalubre é mesmo preocupante. Nunca usei tanto o aparelho de ar-condicionado. Percebo que a conta alta de energia elétrica não me mete medo o bastante para eu ceder ao calor e dormir suando em bicas (quando se consegue dormir). O termômetro pessoal disparou definitivamente ontem. Após ter sentido um mal-estar quando caminhava ao redor da Lagoa Rodrigo de Freitas, na zona sul da cidade. Minha esposa e eu temos praticado esse exercício. Nos finais de semana, bem cedo, enquanto caminho, Rita corre ao meu lado. Isso tem sido muito prezeroso para nós. Porém, neste último domingo, fomos um pouco mais tarde, às 9h. Mas o sol já esquentava a mufa de muitos e a minha não quis pagar pra ver até o final da volta. Resolvemos voltar e pela primeira vez não contornamos a lagoa. E olha que no horário de verão 9 horas são 8.
 
Então precisamos pensar sim na natureza e em nossa relação com ela. Estamos imersos nesta natureza, de onde se retira o ar para respirar, a água para beber, a sombra para descançar. Mas, de um modo bastante estúpido e burro, poluímos o ar, a água, derrubamos as árvores, diminuindo cada vez mais as sombras. Impermeabilizamos o solo com o cimento, com o asfalto; subimos espigões cada vez mais altos e despejamos nossos dejetos criminosamente nos rios e nas lagoas de nossa cidade. Como resolver? Pensemos nisso e procuremos agir em nome da nossa própria salvação. O calor não está tão forte porque Deus ou o acaso (como queiram alguns) assim quer que seja. A temperatura varia e muito de acordo com o que vimos fazendo há um bom tempo com o nosso ambiente. A música "Futuros amantes" de Chico Buarque de Holanda fala de um Rio de Janeiro submerso pelas águas, onde os amantes teriam deixado rastros de seus romances. Uma tese muito estudada e discutida por ser o Rio uma cidade costeira e também por toda uma topografia apropriada para alagamentos. Apesar da música ser uma poesia, também é, fundamentalmente, ciência. que mostra possíveis efeitos para tanto destrato e descaso com a natureza.
 
Outro exemplo da música sobre essa difícil relação do homem com a natureza se expressa na canção "Súplica cearense" de Gordurinha e Nelinho, popularizada na voz de Luiz Gonzaga. Esta, porém, traz um apelo religioso da gente pobre e fervorosa do sertão, castigada pela seca. Na música, o sertanejo pede perdão a Deus por ter pedido que chovesse para que a lavoura e a vida, de um modo geral, fosse possível. No caso, ele se refere a uma grande inundação pelas fortes chuvas que naquele lugar não é comum. A música, embora triste, é linda e vale conhecê-la.
 
Outro dia no Facebook li uma mensagem creditada a Clint Eastwood, famoso ator, ícone do cinema americano. Ela diz que "todo mundo fala sobre como deixar um planeta melhor para nossos filhos. Na verdade deveríamos tentar deixar filhos melhores para o nosso planeta". Ele tem razão na medida que entendemos que se os homens atuais não conseguem resolver, talvez uma futura geração bem educada e engajada quanto às questões ambientais possa mudar esse estado de coisas.