Imagens cinzas envolventes,
num misto de lágrima e dor,
num processo acelerado de sombras,
me levam a diversas dimensões,
rodopiando à minha frente
como um caleidoscópio de ilusões.
E quando volto a mim, estou exausto,
cansado mesmo da dor.
Ela, a dor, casa-se à minha pele,
que incapaz e frágil se entrega
como uma caça ao caçador audaz.
A dor, sempre que percebe minha desatenção,
corre ao meu encontro despertando-me.
Ela é quem me liga ao divino.
Canso-me dela e nem sempre a preciso.
Mas, acho até mesmo que a dor não é má.
Imagens retorcidas no inconsciente
surgem para me conscientizar.
_Incrível isso!
A dor é minha mal-amada musa.
E eu que me encontrava perdido,
me encontro, depois que ela, passando
por mim, se vai.
Não quero mais amar a ninguém
Não fui feliz, o destino não quis
O meu primeiro amor [ Estribilho]
Morreu como a flor ainda em botão
Deixando espinhos que dilaceram meu coração
Semente de amor sei que sou desde nascença
Mas sem ter brilho e fulgor, eis a minha sentença
Tentei pela primeira vez, um sonho vibrar
Foi beijo que nasceu e morreu sem se chegar a dar
ESTRIBILHO
As vezes dou gargalhada ao lembrar do passado
Nunca pensei em amor, nunca amei nem fui amado
Se julgas que estou mentindo, jurar sou capaz
Foi simples sonho que passou e nada mais
ESTRIBILHO
O que dou preferência hoje em dia
É viver com bastante alegria
E o sorriso que esperava esconder
Saudade que me faz sofrer
Composição de Zé da Zilda, Carlos Cachaça e e Cartola (1936)
Interpretada por Assis Furriel (voz) e David Oliveira (violão) .
A impressão de que o samba não envelhece é uma coisa muito forte em mim. Ouve-se sambas compostos há 80 anos e percebe-se sua contemporaneidade, tanto na letra quanto na melodia. Os sambas de Noel Rosa, Cartola, Wilson Batista e Geraldo Pereira, só para citar quatro compositores clássicos, são exemplos disso. Obviamente, a história do samba é representada por outros compositores que imprimiram essa modernidade ao gênero.
Algumas épocas marcaram tão fortemente a memória social, que suas músicas também remetem a esses tempos. De modo que ficam, como costuma-se dizer, datadas. A canção de característica política dos anos 60 é um exemplo. Esta música, quando ouvida décadas depois, nos dá a impressão de um tempo longínquo, às vezes melancólico, às vezes puramente histórico. Canções assim tornam-se músicas que só são executadas em homenagens a temas específicos ou nas antologias de compositores importantes.
No entanto, sambas compostos numa mesma época, como a dos anos 60, curiosamente, não aparentam mostrar algo ultrapassado pelo tempo. Não sei se pelas letras, em geral de cunho popular, como pela crônica da gente simples ou se por seu ritmo especialíssimo. O fato é que conseguimos transportá-los facilmente para os tempos atuais.
Se analisarmos pela questão dos gêneros musicais, também perceberemos essa diferenciação do samba em relação a outros, como por exemplo, o choro, a marcha, o bolero, o próprio samba-canção, o rock`n`roll dos anos 50 etc.
Pode-se ouvir sambas de Noel e de Cartola dos anos 30 ou outros de Geraldo Pereira e de Wilson Batista dos anos 40 e 50 e sentir sua contemporaneidade nos versos, ritmos e melodias.
O samba moderno, transformado nos morros cariocas e consolidado nas rádios brasileiras, a partir de um projeto de Estado, como um dos símbolos nacionais, é o samba do qual estou me referindo. É importante identificá-lo, pois bem sabemos que este gênero musical guarda consigo uma grande variedade rítmica e que se diferencia por samba-de-roda, samba-canção, samba-de-partido-alto, samba-choro e por aí vai.
Pois bem, este samba moderno, símbolo nacional, é de origem carioca e sempre esteve envolvido no debate ideológico que busca identificar seu berço.
Ora, este samba, a meu ver, nasceu no morro mesmo. Suas raízes hereditárias, essas sim, são de diferentes origens. Considerando que ritmos como o lundu, o maxixe e o choro remetem a lugares e a culturas diversas, podemos concluir, pois, que o debate se justifique. Mas, considerar que o samba carioca, como conhecemos hoje, nasceu na Bahia ou na Pedra do Sal ou mesmo nas rodas da casa da Tia Ciata é remetê-lo aos seus ancestrais. Eu diria que esses ritmos citados compõem uma pré-história do samba. Essa disputa pela natalidade do samba foi motivo de inspiração para Noel Rosa, que em Feitio de Oração (com Vadico) resolveu fechar questão dizendo que o samba na realidade não viria do morro nem da cidade, mas do coração sensível.
“... O samba na realidade não vem do morro
Nem lá da cidade
E quem suportar uma paixão
Sentirá que o samba então
Nasce do coração”
O gênero foi inventado a partir da transformação em sua síncope e tornou-se algo novo, adquirindo a propriedade que tem o sal de conservar-se a si próprio. O samba continua atual, porque sobreviveu a todos os tempos, acompanhando os movimentos musicais e seus novos gêneros, como a MPB surgida nos anos 60.
Como diz o sambista e poeta Nelson Sargento: “samba agoniza, mas não morre”.
"Cem mil réis", de Noel e Vadico (1934), apresentado por Marília Batista
(a intérprete preferida de Noel, juntamente com Aracy de Almeida) e o conjunto Coisas Nossas.
Cartola canta "Quem me vê sorrindo", de Cartola e Carlos Cachaça (1939).
"Acertei no milhar", de Wilson Batista e Geraldo Pereira (1940), com Jorge Veiga.
Borzeguim, deixa as fraldas ao vento
E vem dançar
E vem dançar
Hoje é sexta-feira de manhã
Hoje é sexta-feira
Deixa o mato crescer em paz
Deixa o mato crescer
Deixa o mato
Não quero fogo, quero água
(deixa o mato crescer em paz)
Não quero fogo, quero água
(deixa o mato crescer)
Hoje é sexta-feira da paixão sexta-feira santa
Todo dia é dia de perdão
Todo dia é dia santo
Todo santo dia
Ah, e vem João e vem Maria
Todo dia é dia de folia
Ah, e vem João e vem Maria
Todo dia é dia
O chão no chão
O pé na pedra
O pé no céu
Deixa o tatu-bola no lugar
Deixa a capivara atravessar
Deixa a anta cruzar o ribeirão
Deixa o índio vivo no sertão
Deixa o índio vivo nu
Deixa o índio vivo
Deixa o índio
Deixa, deixa
Escuta o mato crescendo em paz
Escuta o mato crescendo
Escuta o mato
Escuta
Escuta o vento cantando no arvoredo
Passarim passarão no passaredo
Deixa a índia criar seu curumim
Vá embora daqui coisa ruim
Some logo
Vá embora
Em nome de Deus é fruta do mato
Borzeguim deixa as fraldas ao vento
E vem dançar
E vem dançar
O jacu já tá velho na fruteira
O lagarto teiú tá na soleira
Uirassu foi rever a cordilheira
Gavião grande é bicho sem fronteira
Cutucurim
Gavião-zão
Gavião-ão
Caapora do mato é capitão
Ele é dono da mata e do sertão
Caapora do mato é guardião
É vigia da mata e do sertão
(Yauaretê, Jaguaretê)
Deixa a onça viva na floresta
Deixa o peixe n'água que é uma festa
Deixa o índio vivo
Deixa o índio
Deixa
Deixa
Dizem que o sertão vai virar mar
Diz que o mar vai virar sertão
Deixa o índio
Dizem que o mar vai virar sertão
Diz que o sertão vai virar mar
Deixa o índio
Deixa
Deixa
Passarim quis pousar, não deu, voou
Porque o tiro partiu mas não pegou
Passarinho, me conta, então me diz:
Por que que eu também não fui feliz?
Me diz o que eu faço da paixão?
Que me devora o coração..
Que me devora o coração..
Que me maltrata o coração..
Que me maltrata o coração..
E o mato que é bom, o fogo queimou
Cadê o fogo? A água apagou
E cadê a água? O boi bebeu
Cadê o amor? O gato comeu
E a cinza se espalhou
E a chuva carregou
Cadê meu amor que o vento levou?
(Passarim quis pousar, não deu, voou)
Passarim quis pousar, não deu, voou
Porque o tiro feriu mas não matou
Passarinho, me conta, então me diz:
Por que que eu também não fui feliz?
Cadê meu amor, minha canção?
Que me alegrava o coração..
Que me alegrava o coração..
Que iluminava o coração..
Que iluminava a escuridão..
Cadê meu caminho? A água levou
Cadê meu rastro? A chuva apagou
E a minha casa? O rio carregou
E o meu amor me abandonou
Voou, voou, voou
Voou, voou, voou
E passou o tempo e o vento levou
Passarim quis pousar, não deu, voou
Porque o tiro feriu mas não matou
Passarinho, me conta então, me diz:
Por que que eu também não fui feliz?
Cadê meu amor, minha canção?
Que me alegrava o coração..
Que me alegrava o coração..
Que iluminava o coração..
Que iluminava a escuridão..
E a luz da manhã? O dia queimou
Cadê o dia? Envelheceu
E a tarde caiu e o sol morreu
E de repente escureceu
E a lua, então, brilhou
Depois sumiu no breu
E ficou tão frio que amanheceu
(Passarim quis pousar, não deu, voou)
Passarim quis pousar não deu
Voou, voou, voou, voou, voou
Quero a utopia, quero tudo e mais
Quero a felicidade nos olhos de um pai
Quero a alegria muita gente feliz
Quero que a justiça reine em meu país
Quero a liberdade, quero o vinho e o pão
Quero ser amizade, quero amor, prazer
Quero nossa cidade sempre ensolarada
Os meninos e o povo no poder, eu quero ver
São José da Costa Rica, coração civil
Me inspire no meu sonho de amor Brasil
Se o poeta é o que sonha o que vai ser real
Bom sonhar coisas boas que o homem faz
E esperar pelos frutos no quintal
Sem polícia, nem a milícia, nem feitiço, cadê poder ?
Viva a preguiça viva a malícia que só a gente é que sabe ter
Assim dizendo a minha utopia eu vou levando a vida
Eu viver bem melhor
Doido pra ver o meu sonho teimoso,um dia se realizar