Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar –sozinho, à noite–
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que disfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
De Primeiros cantos (1847)
Gonçalves Dias
.
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
sábado, 7 de janeiro de 2012
Navio Negreiro de Castro Alves
I
'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.
'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro...
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro...
'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...
'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas...
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas...
Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.
Bem feliz quem ali pode nest'hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento...
E no mar e no céu — a imensidade!
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento...
E no mar e no céu — a imensidade!
Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!
Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!
Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia...
..........................................................
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia...
..........................................................
Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!
Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.
II
Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após.
Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!
O Inglês — marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,
(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!
Que ao nascer no mar se achou,
(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!
Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu ...
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu! ...
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu ...
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu! ...
III
Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!
IV
Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...
Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!
E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...
Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!
No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."
E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...
V
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!
Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!...
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!...
São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . .
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . .
São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma — lágrimas e fel...
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma — lágrimas e fel...
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.
Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus ...
... Adeus, ó choça do monte,
... Adeus, palmeiras da fonte!...
... Adeus, amores... adeus!...
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus ...
... Adeus, ó choça do monte,
... Adeus, palmeiras da fonte!...
... Adeus, amores... adeus!...
Depois, o areal extenso...
Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...
E a fome, o cansaço, a sede...
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p'ra não mais s'erguer!...
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.
Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...
E a fome, o cansaço, a sede...
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p'ra não mais s'erguer!...
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.
Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...
Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute... Irrisão!...
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute... Irrisão!...
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! ...
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! ...
VI
Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...
Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...
Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!
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terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Todos nós
( Gijs Andriessen / Juca Filho )
Na calma de uma lua do Xingu
Debaixo do mistério do Equador
A história que um Cacique me contou
Sozinho numa rua de Paris
O brilho aventureiro de um olhar
Espíritos ciganos, todos nós
O sol em Nova Deli de manhã
É o mesmo que ilumina Amsterdan
E brilha nas trincheiras do Irã
No frio solitário de um Iglu
O abraço companheiro de um amigo Esquimó
E na verdade nunca estamos sós
O povo do planeta somos nós
Meninas lindas do Afeganistão
Crianças numa praia do Japão
O Tai-Chi nas praças de Pequim
Chorando o coração da África
Na vibração dos filhos de Xangô
Cantando a esperança e não a dor
No fundo todos Deuses são iguais
As línguas e as religiões
Se encontram no bater dos corações
O povo do planeta somos nós
Vivendo juntos mais uma vez
E na verdade nunca estamos sós
No fundo todos homens são iguais
Na calma de uma lua do Xingu
Debaixo do mistério do Equador
A história que um Cacique me contou
Sozinho numa rua de Paris
O brilho aventureiro de um olhar
Espíritos ciganos, todos nós
O sol em Nova Deli de manhã
É o mesmo que ilumina Amsterdan
E brilha nas trincheiras do Irã
No frio solitário de um Iglu
O abraço companheiro de um amigo Esquimó
E na verdade nunca estamos sós
O povo do planeta somos nós
Meninas lindas do Afeganistão
Crianças numa praia do Japão
O Tai-Chi nas praças de Pequim
Chorando o coração da África
Na vibração dos filhos de Xangô
Cantando a esperança e não a dor
No fundo todos Deuses são iguais
As línguas e as religiões
Se encontram no bater dos corações
O povo do planeta somos nós
Vivendo juntos mais uma vez
E na verdade nunca estamos sós
No fundo todos homens são iguais
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Enquanto isso... o disco de Claudio Nucci que não saiu!
Capa do K7
|
Recentemente, trocando novidades históricas musicais sobre Claudio Nucci com meu amigo Túlio Villaça, resolvi contar-lhe uma história sobre o cantor e compositor que acompanhei e presenciei a partir de uma apresentação sua. A história fonográfica do Nucci, apesar de belíssima, é mesmo difícil.
Lá pelo início dos anos 90, se não me engano, no ano de 91, meu amigo Luiz Claudio, músico guitarrista, me convidou para ver um show dele na sala Sidney Miller. Era o lançamento de um novo trabalho, mas que por falta de patrocínio estava sendo vendido em fita K7 com o nome "Enquanto isso..." (naturalmente, porque enquanto o disco não saísse, o K7 resolvia). Não me lembro se nessa época o CD já era comum. Pois bem, comprei o K7. Resolveu mesmo. A obra é lindíssima, com Sapato Velho, uma música linda sobre o bairro de Santa Tereza (Manhã de Santa de Tereza) e outras pérolas. Sem contar a turma de primeira que o acompanhava, entre os quais Áurea Regina, Jaques Morelenbaüm, Mu Carvalho e por aí vai.
Mais tarde, no programa Jazz+Jazz da rádio Globo Fm, no qual se apresentava a Banda Zil, grupo do qual fazia parte, Nucci falou que o disco ainda estava por sair e se chamaria "Luz e Breu", mas acredito que não saiu mesmo. Aliás, um parêntese: (será preciso uma nova postagem somente pra falar da Banda Zil. Um cometa brilhante e magnífico que passou rapidamente por nós e não mais voltou). Mas, isso é uma outra boa história.
Depois de algum tempo, emprestei o K7 a uma amiga que ficou encantada e demorava em me devolver. Fiquei aflito, com medo de perdê-lo. Como já havia acontecido com outros discos e livros (histórias comuns a muitas pessoas). Insisti que era uma raridade e que eu o queria de volta. Pois bem: ela me fez o favor de me devolver e ainda por cima me presenteou com um CD, que um amigo dela produzira a partir do K7. Importante frisar que nesse tempo esse tipo de transcrição ainda não era comum. Pouca gente fazia esse trabalho e ainda era caro. Logo, desde então, tenho a obra também em CD.
Essa e outras tantas histórias semelhantes são histórias de paixão e reverência pela música de qualidade e que nos sensibiliza de modo indelével!
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
Pelo sim pelo não
Quero falar um pouco desse disco importante da carreira desses dois artistas fantásticos que são Claudio Nucci e Zé Renato. Encontrei-o num canto meio escondido e empoeirado. Fazia muito tempo que não o escutava. Houve um tempo em que ouvi tanto esse disco que acredito por isso tenha dado um tempo dele. Mas, voltando agora a ouví-lo, depois de um longo período, é como reviver um tempo muito bom, quando se tem vinte e poucos anos.
O disco de interessante sucesso, devido a música título que fez parte da trilha sonora da novela, de enorme sucesso, "Roque Santeiro", é na verdade recheado de melodias e letras de extrema sensibilidade e poesia. Isso não toca no rádio, muito menos em novelas engraçadas das oito!
Quando o Claudio Nucci saiu do grupo Boca Livre, logo após o primeiro disco de 1979 (e olha que esse primeiro disco é uma obra-prima), fiquei pensando o porquê. Ele era uma figura marcante. Talvez a mais marcante entre as outras figuras fantásticas. Pensei: que desprendimento! O segundo, o terceiro e os demais discos do grupo foram maravilhosos também e o Nucci não estava mais lá. No entanto, os primeiros discos solos dele, embora continuassem a não vender muito, também foram igualmente maravilhosos. Sua amizade com o parceiro Zé Renato (talvez a voz masculina mais bela e afinada da nossa música atual) já contava de antes ainda do Boca e eu acho que bateu uma saudade de cantar juntos, uma vontade de um reencontro. Dessa saudade e dessa vontade, surgiu esse trabalho em 1984. Maravilha para os que gostam da boa música que não se descarta. Pode, no máximo ficar no armário por um tempo, mas depois volta com toda vitalidade que lhe é própria.
1 Pelo sim, pelo não Claudio Nucci / Juca Filho / Zé Renato
2 Paino Claudio Nucci
3 Toda luz Zé Renato / Juca Filho
4 Papo de passarim Zé Renato / Xico Chaves
5 Atravessando a cidade Juca Filho
6 A hora e a vez Claudio Nucci / Ronaldo Bastos / Zé Renato
7 Quinhentas mais (Five Hundred Miles) H West / tradução Marcio Borges
H. West 8 Macondo Zé Renato / Xico Chaves
9 Mel da ilha Maurício Maestro / Claudio Nucci / Ronaldo Bastos / Zé Renato
10 Manágua Xico Chaves / Claudio Nucci
11 De nós Bizet / domínio público / adaptação Claudio Nucci
Resolvi criar alguns vídeos desse disco e disponibilizá-los no Youtube, pois só encontrava o "Pelo sim pelo não" da tão famosa novela global.
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Contrastes que aproximam
Em visita à exposição "Mulheres negras em diásporas" do fotógrafo Januário Garcia, na qual o artista nos mostra várias imagens de mulheres negras de vários países da América Latina, como Argentina, Peru, Venezuela entre outros, resolvi fotografar a mim mesmo junto a esta foto que considero emblemática em toda a obra de Januário. Ele mesmo já me confidenciou o seu apreço por essa imagem. Do resultado do meu registro me veio esses contrastes que resolvi listar nessa minha homenagem ao amigo Janu.
O velho e o novo
A mulher e o homem
O preto e branco
O preto&branco e o colorido
A África e a Europa
O rural e o urbano
O Brasil e o Brasil
A senhora e o rapaz
A experiência e o aprendiz
A fotografia e o admirador
O ícone e o observador atento
A avó e o neto
.
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
Viva Zapata! – Uma resenha crítica
O filme de Elia Kazan de 1952*, que traz Marlon Brando no auge de sua juventude e o já experiente e fabuloso Anthony Quinn é um clássico do cinema mundial. Kazan se uniu ao roteirista John Steinbeck para juntos contar a história da revolução mexicana a partir de um dos seus mais importantes líderes: Emiliano Zapata. A produção hollywoodiana da Twentieth Century Fox apresenta um conjunto de elementos que possibilita uma análise bem abrangente. O filme é bom! Indiscutivelmente, é muito bom, tendo recebido quatro indicações ao Oscar: melhor Ator (Marlon Brando); melhor Direção de Arte, melhor Trilha Sonora e melhor Ator Coadjuvante (Anthony Quinn), este último, o único premiado.
O filme
O longa conta a história de Emiliano Zapata, líder revolucionário, que revoltado com as arbitrariedades cometidas pelos grandes proprietários de terras, resolve reagir, liderando os camponeses pela recuperação das suas terras, que haviam sido tomadas por esses grandes fazendeiros com o apoio do presidente Porfírio Diaz, há mais de trinta anos no poder. Zapata é convocado por Madero, candidato derrotado à presidência e que estava exilado nos EUA, para liderar os camponeses ao sul. Assim, acreditava que com ele ao norte e Zapata ao sul conseguiriam recuperar a democracia. O problema é que Zapata estava preocupado apenas com a devolução das terras para os agricultores. Os dois conseguem derrubar Porfírio Diaz, que foge para os EUA, mas não sem evitar a morte de muitos camponeses. Madero, por sua vez, é vítima de um golpe, articulado pelo general Victoriano Huerta, que mantém a situação como no governo de Diaz.
Enfim, após a união com Pancho Villa, os rebeldes conseguem derrotar Huerta e então, Zapata, contra sua vontade, assume a presidência. Porém, quando vê que a situação começa a se repetir como antes, desiste do cargo e volta às montanhas para o combate. Ao fim, acaba morto numa emboscada, traído por Aguirre. Seu corpo é exposto em praça pública, mas imediatamente os camponeses que o encontram decidem que vão acreditar que seu herói ainda vive nas montanhas e que sempre que for preciso ele retornará.
A crítica
Se pudéssemos somente deter-nos na trama e no entretenimento (e isso é possível), deixando de lado análises mais sofisticadas de ordem estética ou histórica, o filme, ainda assim, se revelaria de alta qualidade. No entanto, um clássico não se faz apenas do entretenimento. “Viva Zapata!” é o resultado da conjunção de fatores importantes que o torna o que é: a direção e a produção, os atores, a história contada (a revolução mexicana), a época da produção e seu contexto político, etc.
O diretor Elia Kazan, reconhecido por sua genialidade artística, mas também por sua participação na política de delação** dos comunistas na “’era macartista”, já era um premiado diretor, tendo dirijo Brando em “Uma rua chamada pecado”. Esta produção, adaptada da peça de Tennessee Williams, “Um bonde chamado desejo”, de 1947, ganhou o prêmio especial do júri do Festival de Veneza em 1951. O diretor voltaria a juntar-se ao ator em “Sindicato de ladrões” de 1954, tendo recebido por este trabalho o Oscar de melhor direção. Sua experiência teatral certamente contribuiu para a forte dramaticidade do filme, assim como em sua estética visual. As cenas finais que mostram sua morte demonstram bem esses aspectos: o silêncio mórbido do momento; as mulheres beatas, rezando seus terços tendo por detrás a sombra de uma cruz na parede; os closes do cavalo agitado, como que pressentindo o que estava por ocorrer; as mulheres encaminhando-se para o corpo morto de Zapata, na praça; a decisão de torná-lo imortal, naquele momento, pelos camponeses. Tudo isso é bem marcante e profundo.
O filme apresenta um Marlon Brando após o grande sucesso de “Uma rua chamada pecado”, no qual se tornara um símbolo sexual. O galã empresta toda sua elegância e beleza a um personagem rural e rude. A intenção de Kazan, segundo alguns críticos, era a de opor, a partir de um contexto da “Guerra Fria” dos anos 1950, o ideal democrático norte-americano e o comunismo soviético. Neste caso, “Zapata era o representante da bondade e da luta honesta, e Fernando Aguirre, traidor e manipulador”.
No caso de Andréa de Fazio***, seu trabalho, “Viva Zapata!, de Elia Kazan: um olhar norte-americano sobre a América Latina durante o período macartista (1950-1954)” propõe “uma análise sobre as formas que os Estados Unidos vêem o México, e de forma mais abrangente, a América Latina, através das visões, imagens e representações construídas pelo filme Viva Zapata!”.
De certo modo, as questões políticas dos anos pós Segunda Guerra influenciaram bastante as produções desta época, assim como suas análises críticas as quais foram objetos.
Em 1999, a Academia de Hollywood concedeu a Kazan o Oscar honorário pelo conjunto da obra. Esta decisão gerou protestos de vários artistas que se opuseram a homenagem.
Teses e protestos à parte, a genialidade de Kazan, ainda que represente uma figura contraditória, se mostra a toda prova.
Trailer
**] Elia Kazan, o delator. Disponível em: http://educaterra.terra.com.br/voltaire/cultura/2003/09/29/000.htm
*** De FAZIO, Andréa Helena Puydinger. Viva Zapata!, de Elia Kazan: um olhar norte-americano sobre a América Latina durante o período macartista (1950-1954). Disponível em: http://www.anphlac.org/ periodicos/anais/encontro8/andrea_fazio.pdf
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