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| Transa, 1972 - Polygram |
A generosidade com que Caetano Veloso nos apresenta outros clássicos em suas músicas é muito legal. Ele sabe bem o que faz! Aliás, a genialidade de todo artista se reconhece, entre outras coisas, por esse altruísmo inteligente que mostra o fundamental, a todo momento, a quem importar.
Caetano tem por marca essas citações em seu trabalho. Não apenas as referências musicais, mas tantas outras como as literárias, por exemplo, quando cita autores e suas obras relevantes. Um exemplo é Outro retrato (do disco "Estrangeiro"), na qual o compositor se refere a dois "Joões" (um poeta, outro músico) que, segundo a letra da música, vêm a ser suas fontes de inspiração tanto para a sua música quanto para a sua poesia: "Minha música vem da/ Música da poesia de um poeta João que/ Não gosta de música/ Minha poesia vem/ Da poesia da música de um João músico que/ Não gosta de poesia". As fontes citadas são, a julgar pela própria letra, o poeta João Cabral de Melo Neto e o músico João Donato: "O dado de Cabral/ A descoberta de Donato". Outro exemplo de referência literária é A terceira margem do rio, na qual Veloso, juntamente com Milton Nascimento, homenageia outro João, o Guimarães Rosa. Caetano conta em entrevista no DVD "A sede do peixe", do amigo Milton, como se deu a parceria da música. Ele diz que o parceiro chegou com a música já intitulada para que ele a letrasse e que a coisa já estava pronta. "Foi sopa", disse o baiano. Modéstia também é uma virtude dos gênios.
Essa sua característica dialoga com uma mistura de várias áreas do pensamento, como a sociologia, a antropologia e a política como nas composições O cu do mundo, Haiti, O estrangeiro, Os outros românticos, Fora da ordem entre outras. Em Língua, faz uma espécie de elogio à língua portuguesa, falando sobre sua relação com ela e sobre a relevância poética de autores como Luíz de Camões, Fernando Pessoa e Guimarães Rosa: "Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões" (...) "Gosto do Pessoa na pessoa/ Da rosa no Rosa" (...) Assim, para Caetano, "A língua é minha pátria".
Alguns poucos exemplos, aqui apresentados e não bem aprofundados, precisariam de um espaço maior para tal. Talvez um livro. É imenso o universo da obra do autor.
No entanto, as referências que Caetano faz em You don't know me, uma composição do disco Transa de 1972, merece um pouco mais de detalhes, devido a preferência deste blogueiro. O disco foi gravado em Londres e lançado em terras brasileiras em março daquele ano. Marca a volta do músico de seu exílio e por conta disso, é cheio de letras escritas na língua inglesa, muito provavelmente, pelas experiências vividas naquela ilha britânica, como o reggae que ele ouviu por lá e que tanto o impressionou e que conta na ótima Nine out of ten.
A distância do exílio e a saudade do Brasil, ainda que por um tempo curto (2 anos e meio - jul/69 a fev/72), certamente, resultaram na necessidade de afirmação da nossa língua e da nossa cultura, refletida na mistura inglês-português em praticamente todo o disco. Já na não misturada Triste Bahia, título inspirado no poema de Gregório de Mattos ao que se refere, afirma a veia brasileira no ritmo e na solução buscada para a canção, nada européia. Caetano fez essa mescla com muita eficiência. O disco ficou ótimo, moderno e com uma sonoridade pop muito bacana. Na minha opinião, um dos melhores trabalhos seus.
Em You don't know me, Caetano parece certo de que o outro (o estrangeiro) não venha nunca a conhecê-lo ("Bet you’ll never get to know me") e por isso apresenta suas marcas, suas referências (ou melhor, algumas delas), apresentando-se: "Nasci lá na Bahia/ De mucama com feitor/ O meu pai dormia em cama/ Minha mãe no pisador", aproveitando-se de Maria Moita de Carlos Lyra. Em seguida, cita "Laia ladaia sabatana Ave Maria/ Laia ladaia sabatana Ave Maria", refrão de Reza de Edu Lobo e Ruy Guerra. Finalizando a letra, emenda com o rei do baião, Luiz Gonzaga: "Eu agradeço ao povo brasileiro/ Norte, Centro, Sul inteiro/ Onde reinou o baião", da música Hora do Adeus. Todas, definitivamente, obras fundamentais da música nacional.
O compositor baiano, certo de sua própria importância, ainda faz uma outra referência. Agora a si próprio, na canção incidental Saudosismo, cantada por Gal Costa que a gravou primeiramente em seu disco de 1969. Ainda assim, essa música feita por Caetano é toda recheada de lembranças e referências à Bossa Nova, como títulos de canções, músicos do movimento, iniciando com as mesmas palavras de Fotografia de Tom Jobim: "Eu, você, nós dois...".
Na versão do vídeo abaixo, esse trecho da música citada é tocada pelo guitarrista da banda. Porém, no link mais abaixo é possível ouvir Gal cantando na versão original do disco Transa: "Eu, você, nós dois/ Já temos um passado meu amor/ Um violão guardado, aquela flor/ E outras mumunhas mais".
Na versão do vídeo abaixo, esse trecho da música citada é tocada pelo guitarrista da banda. Porém, no link mais abaixo é possível ouvir Gal cantando na versão original do disco Transa: "Eu, você, nós dois/ Já temos um passado meu amor/ Um violão guardado, aquela flor/ E outras mumunhas mais".
Caetano é ídolo e tiete ao mesmo tempo, o que o faz aproximar-se do seu público. Embora seja considerado pessoa difícil, por outro lado, revela essa característica de homem comum, que gosta e que reverencia o que gosta. O reconhecimento que ele tem dos artistas e das obras fundamentais, como ele tão bem o é, revela sua principal marca: a sua generosidade
You don’t know me
Caetano Veloso
Caetano Veloso
You don’t know me/ Bet you’ll never get to know me/ You don’t know me at all/ Feel so lonely/ The world is spinning round slowly/ There’s nothing you can show me/ From behind the wall/ "Nasci lá na Bahia/ De mucama com feitor/ O meu pai dormia em cama/ Minha mãe no pisador"/ "Laia ladaia sabatana Ave Maria/ Laia ladaia sabatana Ave Maria"/ "Eu agradeço ao povo brasileiro/ Norte, Centro, Sul inteiro/ Onde reinou o baião"
As referências:
Maria Moita
Reza
Hora do Adeus


