domingo, 3 de julho de 2011

A intertextualidade na obra de Caetano Veloso

Transa, 1972 - Polygram
A generosidade com que Caetano Veloso nos apresenta outros clássicos em suas músicas é muito legal. Ele sabe bem o que faz! Aliás, a genialidade de todo artista se reconhece, entre outras coisas, por esse altruísmo inteligente que mostra o fundamental, a todo momento, a quem importar. 

Caetano tem por marca essas citações em seu trabalho. Não apenas as referências musicais, mas tantas outras como as literárias, por exemplo, quando cita autores e suas obras relevantes. Um exemplo é Outro retrato (do disco "Estrangeiro"), na qual o compositor se refere a dois "Joões" (um poeta, outro músico) que, segundo a letra da música, vêm a ser suas fontes de inspiração tanto para  a sua música quanto para a sua poesia:  "Minha música vem da/ Música da poesia de um poeta João que/ Não gosta de música/ Minha poesia vem/ Da poesia da música de um João músico que/ Não gosta de poesia". As fontes citadas são, a julgar pela própria letra, o poeta João Cabral de Melo Neto e o músico João Donato: "O dado de Cabral/ A descoberta de Donato". Outro exemplo de referência literária é  A terceira margem do rio, na qual Veloso, juntamente com Milton Nascimento, homenageia outro João, o Guimarães Rosa. Caetano conta em entrevista no DVD "A sede do peixe", do amigo Milton, como se deu a parceria da música. Ele diz que o parceiro chegou com a música já intitulada para que ele a letrasse e que a coisa já estava pronta. "Foi sopa", disse o baiano. Modéstia também é uma virtude dos gênios.

Essa sua característica dialoga com uma mistura de várias áreas do pensamento, como a sociologia, a antropologia e a política como nas composições O cu do mundo, HaitiO estrangeiro, Os outros românticosFora da ordem entre outras. Em Língua, faz uma espécie de elogio à língua portuguesa, falando sobre sua relação com ela e sobre a relevância poética de autores como Luíz de Camões, Fernando Pessoa e Guimarães Rosa: "Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões" (...) "Gosto do Pessoa na pessoa/ Da rosa no Rosa" (...) Assim, para Caetano, "A língua é minha pátria".

Alguns poucos exemplos, aqui apresentados e não bem aprofundados, precisariam de um espaço maior para tal. Talvez um livro. É imenso o universo da obra do autor.


No entanto, as referências que Caetano faz em You don't know me, uma composição do disco Transa de 1972, merece um pouco mais de detalhes, devido a preferência deste blogueiro. O disco foi gravado em Londres e lançado em terras brasileiras em março daquele ano. Marca a volta do músico de seu exílio e por conta disso, é cheio de letras escritas na língua inglesa, muito provavelmente, pelas experiências vividas naquela ilha britânica, como o reggae que ele ouviu por lá e que tanto o impressionou e que conta na ótima Nine out of ten.

A distância do exílio e a saudade do Brasil, ainda que por um tempo curto (2 anos e meio - jul/69 a fev/72), certamente, resultaram na necessidade de afirmação da nossa língua e da nossa cultura, refletida na mistura inglês-português em praticamente todo o disco. Já na não misturada Triste Bahia, título inspirado no poema de Gregório de Mattos ao que se refere, afirma a veia brasileira no ritmo e na solução buscada para a canção, nada européia. Caetano fez essa mescla com muita eficiência. O disco ficou ótimo, moderno e com uma sonoridade pop muito bacana. Na minha opinião, um dos melhores trabalhos seus.

Em You don't know me, Caetano parece certo de que o outro (o estrangeiro) não venha nunca a conhecê-lo ("Bet you’ll never get to know me")  e por isso apresenta suas marcas, suas referências (ou melhor, algumas delas), apresentando-se: "Nasci lá na Bahia/ De mucama com feitor/ O meu pai dormia em cama/ Minha mãe no pisador", aproveitando-se de Maria Moita de Carlos Lyra. Em seguida, cita "Laia ladaia sabadana Ave Maria/ Laia ladaia sabadana Ave Maria", refrão de Reza de Edu Lobo e Ruy Guerra. Finalizando a letra, emenda com o rei do baião, Luiz Gonzaga: "Eu agradeço ao povo brasileiro/ Norte, Centro, Sul inteiro/ Onde reinou o baião", da música Hora do Adeus. Todas, definitivamente, obras fundamentais da música nacional.

O compositor baiano, certo de sua própria importância, ainda faz uma outra referência. Agora a si próprio, na canção incidental Saudosismo, cantada por Gal Costa que a gravou primeiramente em seu disco de 1969. Ainda assim, essa música feita por Caetano é toda recheada de lembranças e referências à Bossa Nova, como títulos de canções, músicos do movimento, iniciando com as mesmas palavras de Fotografia de Tom Jobim: "Eu, você, nós dois...".

Na versão do vídeo abaixo, esse trecho da música citada é tocada pelo guitarrista da banda. Porém, no link mais abaixo é possível ouvir Gal cantando na versão original do disco Transa: "Eu, você, nós dois/ Já temos um passado meu amor/ Um violão guardado, aquela flor/ E outras mumunhas mais".

Caetano é ídolo e tiete ao mesmo tempo, o que o faz aproximar-se do seu público. Embora seja considerado pessoa difícil, por outro lado, revela essa característica de homem comum, que gosta e que reverencia o que gosta. O reconhecimento que ele tem dos artistas e das obras fundamentais, como ele tão bem o é, revela sua principal marca: a sua generosidade


You don’t know me
Caetano Veloso

You don’t know me/ Bet you’ll never get to know me/ You don’t know me at all/ Feel so lonely/ The world is spinning round slowly/ There’s nothing you can show me/ From behind the wall/ "Nasci lá na Bahia/ De mucama com feitor/ O meu pai dormia em cama/ Minha mãe no pisador"/ "Laia ladaia sabadana Ave Maria/ Laia ladaia sabadana Ave Maria"/ "Eu agradeço ao povo brasileiro/ Norte, Centro, Sul inteiro/ Onde reinou o baião"





As referências:

Maria Moita
video


Reza

video



Hora do Adeus

15 comentários:

  1. Grande Assis,
    Adoro o Caetano, apesar de muitas vezes não concordar com suas posições. Ele mesmo já diz "eu vou contra a via, canto contra a melodia, nado contra a maré..." ou algo parecido com isso. Caetano não gosta de ter posições do "senso comum", ele é por natureza polêmico. Mas,como você bem escreveu, é um gênio.
    Gostei muito do texto, aprendi mais desse cara bacana. É muito bom ser contemporâneo dessa gente.
    abs
    Nelson

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  2. Muito legal este texto!

    Eu particularmente tenho uma relação de amor e ódio com Caetano. Algumas de suas canções iluminadas tocam e alimentam minha alma... outras, penso: mas como pode ser tão bossal?
    Este texto me fez entender um pouco minha relação com este artista. Acho que é muita admiração! Paixão talvez...

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  3. Nelson e Tati,

    concordo exatamente com o que os dois disseram sobre ele. Caetano é "o seu próprio bem e o seu próprio mal". Tem muita coisa que não curto dele, é claro. Mas o que mais me chama a atenção é isso que escrevi: como ele gosta e sabe fazer apontamentos, referir-se a outros links importantes. O cara é fera. Não dá pra passar despercebido!

    Que bom que gostaram!

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  4. Só para começar, sou louca pelo Caetano Veloso, estudo inclusive com o filho dele, o Zeca. Você por sua vez, possuidor de um raio-x de causar inveja ao Superman, cria uma aura, uma atmosfera que faz crescer um sentimento inexplicável! A gente viaja com as suas palavras que se transformam em filme na nossa mente, e nessa foi quase como se nós estivéssemos juntos, você, eu e Caetano!... Faltou pouco para eu nos ofertar um cafézinho neste dia tão frio, para nos aquecer juntamente com a leitura de seus textos que sempre irrigam nossos corações.
    Me sinto até suspeita em postar comentários no seu blog, porque sou sua tiete!!!!kkkkk Mas pode ter certeza de que falo com o coração repleto de sinceridade! BJS!!!!
    DEISE CORDEIRO CANDREVA

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  5. Deise,

    você é demais. Generosa como o Caê.
    Me diga uma coisa, o que é que está estudando? É música?

    Gostei da letra do samba enredo. Você está competindo?

    Se sim, vou torcer pra que ganhe!

    Bjs e obrigado pelas palavras.

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  6. Boa essa, Chico. Saber citar sem repetir nem usar a obra dos outros como muleta para engrandecer a sua, ou simplesmente soar intelectualizado, não é fácil. Uma citação nunca se basta por si, e sim pela recontextualização do que é citado, de modo a somar tanto na obra que cita quanto na que é citada - como quem pega uma tigela emprestada e tem a obrigação de a devolver cheia de alguma comida. O Caetano é mestre disso. Já tratei uma vez lá no Sobre a Canção da "Terra", em que a última estrofe inteira é tirada de "Você já foi à Bahia", do Caymmi, só que com a melodia invertida: onde o Caymmi desce, para falar da Bahia, o Caetano sobe, vendo a Terra do espaço sideral:
    "Nas fachadas dos sobrados da velha São Salvador / há lembranças de donzelas do tempo do Imperador / tudo, tudo na Bahia faz a gente querer bem / A Bahia tem um jeito..." e o Caymmi completa: "que nenhuma terra tem", mas o Caetano apenas emenda no refrão da sua: "Terra" Toda a estrofe muda de sentido, é impressionante. E aí, ao ouvir o Caymmi de novo depois, parece que ele também fala de algo maior (e falava, nós é que não tínhamos percebido, e agora, ouvindo pelos ouvidos do Caetano, nos damos conta). É sensacional, e é só um exemplo. O do "Saudosismo" é genial também, qualquer dia pego para analisar por lá, boa lembrança. Parabéns.

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  7. Valeu, Tulio.

    Você é bom mesmo nisso. Concordo com toda essa abordagem que você fez. É o que penso tb. Já tinha reparado nessa citação de "Terra", mas não com esse seu olhar. Por isso, a importância desas trocas. Não à toa, reverenciamos esse baiano, que apesar de polêmico, é fundamental pra nossa cultura.

    Grande abraço e obrigado por participar aqui neste espaço!

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  8. Assis,

    Gostei bastante do texto. Aos poucos as informações sobre o tema crescem e fico com a mesma sensação de que a sua calorosa forma de escrever sempre cativa os leitores.
    Desconhecia tanta história aqui contada...
    Apesar de algumas restrições, também tem um lado meu que gosta de Caetano.
    O que fica neste momento é a lembrança de uma música que gosto muito e que é de autoria dele:"De noite na cama" e a outra é: "Vamos comer Caetano" (Adriana Calcanhotto).
    Quanto à segunda música, fico curiosa e quase pedindo para você escrever sobre o Movimento Antropofágico e assim possibilitar o debate para outras grandes "viagens" musicais.
    Deixo aqui o link para assistir o vídeo desta música: http://youtu.be/RXeMa-Sx8b8

    Parabéns pelo empenho e paixão pela música.

    Grande bj!
    Eliana

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  9. Eliana,

    que bom que gostou. Eu gosto que goste do que escrevo e gosto dos seu elogios. Sinto que são sinceros e isso é muito gratificante.

    São muitas as referências mesmo. De modo, que é difícil num pequeno texto discorrer sobre tudo.

    Como disse, em Caetano há um mundo colocado que se descobre em sua obra. Acho que o que propõe Calcanhoto na música citada por ti, utilizando-se da antropofagia dos modernistas, é a decifração e aproveitamento de sua cabeça baiana pensante.

    Gostei da sua sugestão de tema. Tenho lido algumas coisas dos primeiros modernistas e o Caetano, desde a Tropicália, bebe dessa fonte. Adriana Calcanhoto apenas juntou tudo. É uma maçaroca louca com tanta informação que pra destrinchar, há que se ter espaço e talento pra fazer bem feito.

    Fico sempre na dúvida sobre escrever algo histórico (no modo) ou algo poético (literário).

    Quando escrevo sinto uma vontade muito grande de explicar tudo, didaticamente. Acho que é coisa do curso, coisa do historiador. O problema que eu sou um fingidor. Certo?

    Vamos ver! É sempre bom um desafio!

    Obrigado mais uma vez!
    Bjs.

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  10. Assis,meu querido amigo,

    Não tenho nenhuma restrição a Caetano Veloso,seria sacrilégio tal afirmação de minha parte.Caetano é Caetano,(tautologia necessária),pra mim,desde os primeiros momentos de livre diversão,quando eu podia presenciar sua atuação como personagem-artista-cantor-compositor-conhecedor profundo da Música Popular Brasileira ,em um programa paulista nos anos 60.Isso já me encantava e era motivação para conhecer mais esse baiano tão genial.
    Seguindo a leitura do seu texto,Assis,a mesma motivação me pegou para ler avidamente o seu tão inteligente estudo apresentado.Tenho o Transa,adoro,mas desconhecia detalhes tão importantes por você mencionados.E me sinto enriquecida com a aprendizagem!!!
    Você é uma "transa" muito bem executada.Espero poder contar sempre com suas
    colaborações,para meu crescimento,é claro!!!!Um beijo da Cida.

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  11. Cida,

    uma das coisas sobre Caetano que guardo sempre é você me contando como foi a primeira vez que o viu na televisão, junto com seu irmão, lá pelos anos 60. Achei tão marcante e histórica a sua fala.

    Muita coisa conheci naquele documentário em vários videocassetes que me emprestou. Lembro que naquele vídeo, Caetano apresenta seu filho bebê (o Zeca ou o Tom), não me lembro, à árvore do quintal da casa de sua mãe Canô:"Tempo". Se não me engano, ele fez o mesmo com o primeiro filho Moreno. "Oração ao Tempo" deve ter muito a ver com a árvore. O universo poético e artístico dele é muito mágico e profundo. Nada é casual ou sem valor. Tudo tem um porque, até as coisas que não gostamos tanto.

    Obrigado por suas elogiosas palavras. Vindo de você que sabe tanto e tanto me ensinou e ensina, só me faz bem ao coração!

    Beijos e até o próximo encontro!

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  12. Bem,não me lembro perfeitamente do que havia escrito na postagem acima,que acabei removendo sem saber o porquê...
    Mas acho que dizia algo da lembrança que guardo ainda de contar pra você com todo o entusiasmo,da figura que tinha conhecido na TV.Figura especial,pra mim.Psicodélica,para outros.Fiquei louca por ele.Até hoje (rsrrs)
    O filho do Caetano que é apresentado à árvore no quintal da Dona Canô,é o Zeca. Que momento espetacular e mágico!!!
    E quer saber? Eu não sei nada,sinto,às vezes, alguma coisa..srsrrs
    Um beijo!(Daquele que só faz bem).
    Cida

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  13. Cida,

    aí é que está o "X" da questão: sentir é muito mais que saber. Saber é nada. Como dizia Sócrates: "quanto mais sei, mas sei que não sei". A gente está sempre carecendo de saber bem. O negócio é sentir!

    Bjs sentidos!

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  14. Muito bom seu post <3 Até usei como fonte de pesquisa em um dos posts do meu blog sobre o disco Transa do Caetano!

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    1. Olá Raysa,

      Que legal você ter gostado e o texto ter lhe servido. Volte sempre quando quiser. Tem muito mais textos, sobretudo, de música. Vou ler seus texto também. Abrs.

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