domingo, 5 de maio de 2013

A turma do Estácio e a revolução do samba


No final dos anos 1920 uma importante mudança no cenário do samba e do carnaval carioca acontecia a partir de um grupo de sambistas do bairro do Estácio. Este grupo, de maioria negra e pobre, resolveu organizar seus blocos para desfilar pelo bairro e na Praça Onze. A decisão de sair cantando e sambando, numa caminhada em desfile, revelou uma dificuldade que consistia em encaixar o ritmo da música com o andar cadenciado. Não era possível. O samba da época era típico das rodas, do partido-alto. Tocava-se, cantava-se e sambava-se sem grandes deslocamentos. Sua cadência era própria para as festas, para a dança, assim como a cadência do maxixe e a do lundu. Por isso, esses sambistas resolveram alterar seu ritmo, adaptando-o ao desfile. 

Estava iniciado um novo tempo para o samba e para o carnaval. Essa “revolução” no samba, que o pesquisador Carlos Sandroni identifica como o paradigma do Estácio (Sandroni: 2008), foi feita pelos sambistas Ismael Silva, Nilton Bastos, os irmãos Bide (Alcebíades Barcelos) e Mano Rubem (Rubem Brarcelos), Armando Marçal, Mano Edgar (Edgar Marcelino dos Passos ou dos Santos), Aurélio Gomes, Brancura (Silvio Fernandes) e Baiaco (Osvaldo Caetano Vasques), entre outros menos famosos. Segundo Sandroni, o novo padrão diferenciava-se do antigo pela sincopação (Apud Severiano: 2008; p. 120). Assim nos bares e cafés do Estácio nascia em 1928 o bloco Deixa Falar, uma espécie de embrião das escolas de sambas. Muitos o consideram a primeira Escola de Samba. Os próprios sambistas consideravam-no como escola, pois ao repararem nas normalistas de uma Escola Normal (de formação de professores), situada no Largo do Estácio, pensaram que por criarem um novo samba poderiam considerar-se professores de samba (Severiano: 2008; pp. 118-125).

O Bar Apolo, o Café do Compadre, entre outros estabelecimentos do lugar viram surgir este núcleo de bambas. Os desfiles começavam no Largo do Estácio e finalizavam na Praça Onze, esta marcada por acolher os foliões das classes populares que vinham de vários lugares para brincar ali o carnaval. A história
da síncope foi explicada por Ismael Silva a Sergio Cabral de um modo mais simples e mais prático: “O samba era assim: tan tantan tan tantan. Não dava (...) Aí, a gente começou a fazer um samba assim: bum bum paticumbum prugurundum...” (Apud Severiano: 2008; p. 120).

É também a partir desse grupo do Estácio que o tema malandragem surge no imaginário do samba. Obras como Amor de Malandro (Ismael Silva, Francisco Alves e Freire Junior), “(...) O amor é o do malandro / Oh!Meu bem / Melhor do que ele ninguém / Se ele te bate /É porque gosta de ti / Pois bater-se em quem não se gosta / Eu nunca vi”; Se você jurar (Ismael Silva e Nilton Bastos), “Se você jurar /Que me tem amor / Eu posso me regenerar / Mas se é / Para fingir, mulher / A orgia assim não vou deixar (...)”; Nem é bom falar (Ismael Silva, Nilton Bastos e Francisco Alves) “Nem tudo que se diz se faz / Eu digo e serei capaz / De não resistir / Nem é bom falar / Se a orgia se acabar (...)”, entre outros, deram início ao tema corrente que os anos do Estado Novo de Vargas iriam contrapor com a apologia ao trabalho. 

Outros compositores e cantores importantes fizeram parte do grupo. Entre eles, Heitor dos Prazeres que, embora fosse da geração anterior, também foi um dos fundadores da Deixa Falar; Cartola, referência da Mangueira, era bastante próximo de Ismael Silva e dos demais e nesta época já sofria pressão para vender seus sambas a Francisco Alves e a Mario Reis; outro que se juntou à turma foi Noel Rosa de Vila Isabel que, embora morasse em um bairro de classe média, subia os morros do Estácio e da Mangueira constantemente para estar com os amigos de boemia. São seus alguns sambas de parceria com Ismael e Chico Alves: Para me livrar do mal (com Ismael) de 1932, gravada por Francisco Alves; Uma jura que fiz, gravada por Mario Reis, Adeus e A razão dá-se a quem tem, estas três últimas com Ismael e Francisco Alves, todas também de 1932. O samba Adeus foi uma homenagem dos três ao amigo Nilton Bastos, morto prematuramente no ano anterior.

Dentre os nomes citados, cabe ressaltar os de Bide e Marçal que formaram uma dupla quase constante e da maior importância na música popular brasileira. É deles a antológica Agora é cinza, composição de 1934, gravada primeiramente por Mario Reis, e que foi campeã do carnaval daquele ano. O samba foi gravado por vários cantores, sempre com grande sucesso, entre eles Roberto Silva, Wilson Simonal e Elza Soares.

Potpourri de sambas de Ismael Silva
com Ismael Silva e MPB4, do show O samba pede passagem dos anos 1960



Ismael fala sobre o samba em especial de 1977



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SANDRONI, Carlos. Feitiço decente: transformações do samba no Rio de Janeiro, 1917-1933. 2ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.

SEVERIANO, Jairo. Uma história da música popular brasileira: das origens à modernidade. São Paulo: Editora 34, 2008.

(Monografia - parte) “SAMBA E MODERNIDADE - O samba como agente transformador na primeira metade do século XX” de 2010, de Francisco de Assis Furriel Gonçalves)

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domingo, 28 de abril de 2013

Rua dos Amores, o novo disco de Djavan

Rua dos Amores, 2012
Este é o Djavan que conhecemos e que por vontade própria esteve afastado dos trabalhos autorais desde Matizes, o seu último trabalho de 2007. Ouvir Rua dos Amores, seu mais novo trabalho de 2012, dia após dia, descobrindo devagar todas as músicas e seus detalhes especiais, é uma maravilha. É uma grande felicidade reconhecer num disco novo, um clássico. E é isso que Rua dos Amores é. 

Djavan parece que estava sedento por compor, depois de quatro anos sem gravar um disco cem por cento autoral. Nesse intervalo gravou Ária, disco somente de composições de outros autores. Ótimo disco, por sinal. Fora esse tempo citado, sentia falta desse poder poético e de sua força melódica e rítmica que desde Milagreiro não sentia mais. Esse é um sentimento pessoal, não sei se o leitor concordará. De modo que para mim a espera foi bem mais demorada, já que esse último trabalho citado é de 2001. 

Em seu site oficial, o texto que apresenta o disco é escrito por Hugo Sukman, do qual concordo inteiramente e reproduzo parte: 

"A cada acorde, a cada palavra de Rua dos Amores, o novo CD autoral de Djavan, sente-se a força acachapante e emocionante de um estilo. Pudera: notório estilista da música brasileira, ele é autor de todas as letras e melodias das 13 novas canções, fez todos os arranjos e é o produtor do disco (...) Para um compositor compulsivo e prolífico como Djavan o jejum foi algo sofrido e o acúmulo de energia criativa talvez explique a força da nova safra. Força também "reforçada" pelo reencontro com a antiga banda, com quem não trabalhava há 15 anos, todos mais maduros, tocando muito, afinadíssimos com as ideias e o violão de Djavan."

Bem se vê a sede que estava Djavan quando se debruçou sobre seu novo trabalho: compor, arranjar e produzir. Matar a vontade de criar algo do zero, de si mesmo.

Em Rua dos Amores, todo seu estilo se apresenta em treze faixas. Assim, estão lá em forma de samba, bossa, suingue, funk, jazz, balada, canção as suas novas criações. Definitivamente, Djavan voltou com toda força, com suas composições de extrema beleza e qualidade!




Djavan comenta o disco



O disco interio





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segunda-feira, 8 de abril de 2013

Ônibus, poesia e música


Outro dia, quando saía para o trabalho, peguei um ônibus que liga a zona norte ao centro do Rio. Logo que entrei, notei o som que vinha dos alto-falantes do ônibus. Era o som de uma rádio. Como o som estava um tanto alto e eu ainda um pouco lento por causa do sono, aquilo me perturbou um pouco. Como o antigo carro à álcool, pela manhã eu demoro a pegar. Não gosto de falar e prefiro o silêncio até que desperte por completo. Menos mal, que o som era da rádio JBFM, que eu gosto. No entanto, pensei que aquilo poderia estar incomodando outros passageiros pela altura e por ser uma invasão do direito de não ouvir o que não se quer. Pensei que poderia ser pior. Poderia ser uma dessas rádios mais populares e me incomodar ainda mais. Imediatamente, olhei pelo interior do carro procurando a tal mensagem de proibição de aparelhos sonoros. Batata! Juntamente com outras informações como a da proibição do cigarro, lá estava ela, na frente, bem próximo ao motorista, a etiqueta colada bem ao alto, com o desenho do rádio com a tarja diagonal, indicando a proibição. Pensei de novo: "será que esse motorista gostaria de estar num ônibus como passageiro e ser obrigado a ouvir o que não quisesse?". Peguei os meus fones de ouvido e acabei tendo que ouvir alguma coisa especial, ainda que a intenção inicial fosse a leitura. Fazer o quê?

Enquanto seguia, ouvindo a minha própria seleção musical, lembrei-me de alguns "casos especiais" dentro de ônibus os quais fui testemunha e até participei de um deles como protagonista. É isso mesmo, eu já incomodei ou posso ter incomodado terceiros com a minha música. Apesar desse tipo de evento, geralmente, incomodar os usuários dos transportes públicos, pensei que em algumas situações, podemos nos surpreender com esses ruídos a princípio, indesejáveis.


Um dia, quando voltava pra casa do trabalho, aconteceu um episódio inusitado que até então não tinha presenciado. Eu trabalhava na Urca, um bairro da zona sul do Rio de Janeiro e voltava para Benfica, na zona norte, onde morava. Quando o ônibus entrava no Aterro do Flamengo, uma via expressa, longa e sem pontos de parada, que liga a zona sul ao centro da cidade, era comum a turma do comércio variado aproveitar para vender seus produtos, que em geral ia da inocente balinha a produtos de uso doméstico, como tesouras, retrós de linha e agulhas, aparelhos para descascar legumes etc. Desta vez, um camarada começou a falar e a oferecer poesia. No início, como estava mais para trás do ônibus, senti dificuldade de ouvir e entender o quê exatamente ele oferecia. Começou a recitar algumas poesias de sua autoria, o que para mim, no meio de tanta gente que se apertava, mostrou-se um tanto esquizofrênico. Parecia um lunático a recitar no meio do burburinho alheio do pessoal. Porém, à medida que ia recitando, se aproximava mais para que todo o pessoal de trás pudesse também ouvir. Devagar, as pessoas foram silenciando e eu, vencendo a minha própria resistência, pude perceber, para a minha surpresa, que a poesia era boa. Comecei a dar a devida e possível atenção ao poeta e fiquei maravilhado com a qualidade das poesias. Curioso, levantei-me ao final do aterro e me aproximei dele. Comprei alguns dos folhetos que ele oferecia e bati um bom papo até que ele saltasse na Presidente Vargas. Era uma figura aquele cara e posso dizer que aquela experiência valeu o meu dia. Poesia de qualidade num ônibus apertado, na hora do rush era muito incomum pra deixar passar.


Em outra oportunidade, peguei um ônibus na região da Tijuca, novamente, voltando do trabalho para casa, e me deparei com outra situação que me impressionou de tal forma que até hoje não esqueço o episódio. Eu trabalhava na região do Maracanã e voltava para Benfica, passando pelo morro da Mangueira, da famosa escola de samba de mesmo nome. 

Quando passava perto de uma instituição de ensino, dessas escolas técnicas, entrou um grupo de estudantes, jovens adolescentes, meninos e meninas, naturalmente barulhentos que conversavam, riam e brincavam sempre em voz alta. Logo percebi que o grupo era dali de perto e que aqueles jovens eram amigos, pois falavam de coisas e pessoas que todos conheciam. Sem demora, descobri que eram da Mangueira, pois começaram a batucar e a cantar em voz alta e afinados o samba “Exaltação à Mangueira”: “Mangueira teu cenário é uma beleza que a natureza criou...” Como conhecia e gostava do samba, gostei da surpresa da música. O curioso é que à medida que a música avançava, juntamente com o percurso do ônibus, o morro também se aproximava. O trajeto do ônibus passava por uma rua baixa, lateral à linha férrea (da famosa estação primeira de mangueira), a Rua São Francisco Xavier, e por isso não se podia ver o morro, pelo menos não completamente. Mas, após a subida de uma rua próxima, o ônibus acessava a Avenida Marechal Rondon, que naquele trecho era ainda mais alta e logo na frente ligava-se ao viaduto da Mangueira, que atravessava por sobre a linha do trem, ligando os dois lados do bairro. Quem conhece o local sabe que no trecho inicial do viaduto, vê-se a paisagem do morro na sua totalidade. Pelo menos a face virada para aquele lado.

Pois bem! Quando o ônibus virou, saindo da avenida e entrou no viaduto e a paisagem do morro se fez avistada, os meninos cantavam: “Chegou ô, ô, ô A Mangueira chegou, ô, ô" que é o trecho final e apoteótico do samba. Achei aquela coincidência incrível. 

Essa análise do trajeto e da conclusão da execução da música pelos jovens eu só fiz naquele momento, pois pra mim foi uma surpresa.

Como trabalhei alguns anos nesse mesmo lugar, peguei muitas vezes aquele ônibus e pude encontrar o grupo mais de uma vez, às vezes inteiro, às vezes somente em parte. Numa segunda vez que ele entrou em sua totalidade, tomei conhecimento daquilo que achei ainda mais fantástico. O grupo começou novamente a cantar o samba e então eu marquei exatamente o local do trajeto e fiquei observando e rezando para que nenhum engarrafamento, nem sinal de trânsito pudessem atrapalhar o que eu já imaginava: a apoteose da paisagem do morro e da justa homenagem daqueles jovens rapazes e moças, orgulhosos moradores do morro de Cartola e de Nelson Cavaquinho, entre outros bambas. Quando o ônibus virou e entrou no viaduto, juro que fui discretamente às lágrimas. Era tudo cronometricamente combinado e alegremente executado. Que beleza! Nunca me esquecerei desse grupo e dessa história.


No final dos anos 80, estava com um grupo de amigos e vínhamos para São Cristóvão, onde morávamos, da Barra da Tijuca. Faríamos uma viagem de acampamento em Itatiaia, uma espécie de retiro espiritual misturado a um sentimento meio hippie de liberdade e fraternidade. 

Pois bem, o organizador do evento realizou um encontro, uma prévia para explicar toda a logística do evento, assim como do deslocamento da viagem. Grande parte dos participantes, quase cem pessoas, foi a sua casa que ficava num condomínio na Barra. Quando acabou o encontro, nosso grupo, de mais ou menos dez pessoas, se dirigiu ao terminal de ônibus “Alvorada”. Lá pegamos um ônibus para a Tijuca e de lá, pegaríamos outro ônibus, pois não havia, e nem há até hoje, condução direta ligando os dois bairros.

Assim que entramos fomos para a parte de trás e começamos a tocar violão e a cantar. À medida que o veículo percorria a Barra em direção à subida do Alto da Boa Vista, ligação ao bairro da Tijuca, o ônibus enchia e as pessoas também se surpreendiam com o que ouviam e viam. Um grupo de jovens, de maioria negra, dois branquelos no meio, dois violões e músicas de Milton Nascimento, Beto Guedes, Lô Borges, Boca Livre, entre outros da MPB, ali, de repente, num final de tarde de domingo, não era mesmo algo comum. Para variar, ao mesmo tempo em que eu participava do “show”, também observava o acontecimento com certa estranheza. Afinal, sempre fiz gosto pela discrição. Nunca gostei de chamar a atenção de estranhos. O fato é que eu também me sentia surpreso e adorando aquele concerto inusitado. Música de qualidade, oferecida de graça por um monte de jovens alegres e cheios de paz, num coletivo comum, surpreendia a todos positivamente. Foi demais aquele dia, assim como o retiro também. "A paz na Terra, amor..."


Que bom que as experiências nos espaços públicos nem sempre sejam desagradáveis. A vida nos reserva surpresas altamente belas. Basta termos ouvidos para ouvir, olhos para ver e sensibilidade para sentir.

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sexta-feira, 22 de março de 2013

Fred Figner e o registro fonográfico no Brasil


A história da gravação fonográfica no Brasil inicia-se com a chegada do tcheco Frederico Figner e com a criação da Casa Edson, primeira gravadora que daria início a um processo que viria a configurar uma indústria fonográfica brasileira décadas depois. 

Figner chega ao Brasil, vindo dos Estados Unidos em 1891, desembarcando em Belém do Pará e, no ano seguinte, chega ao Rio de Janeiro. O jornalista e historiador Jorge Caldeira, em matéria para revista História Viva de novembro de 2003, diz que Figner “trazia na bagagem um fonógrafo e alguns quilos de cera – a matéria-prima necessária para gravar vozes”. Após ganhar dinheiro com pessoas que pagavam para ouvir vozes, experiência que era uma grande novidade na época, mas que se esgotou, passou a importar vitrolas e discos e também a gravá-los, pois muita gente ainda tinha interesse em ouvir música. Para isso, “contratou alguns artistas de fama local” para gravarem os discos. Entre os primeiros, constam o flautista Patápio Silva, o maestro Anacleto de Medeiros e os cantores Cadete e Bahiano que, segundo Caldeira, teriam se tornados alguns dos primeiros músicos de gravação profissional do mundo. Em 1897, funda a Casa Edson, até hoje lembrada em qualquer pesquisa sobre a história dos primórdios da música brasileira (Caldeira: 2003; pp. 66-71). 

Em 1902, inicia-se a era do disco no Brasil. Precisamente, nos dias 2 e 5 do mês de agosto daquele ano, jornais como Correio da Manhã, Jornal do Brasil e a Gazeta de Notícias publicavam anúncio da Casa Edson, o qual comunicava a chegada ao Rio de Janeiro das “chapas para gramophones e zonophones”, cantadas pelos popularíssimos cantores Bahiano e Cadete. As 228 chapas compunham o primeiro catálogo de discos brasileiros que foram gravados em 76 rotações por minuto na Casa Edson, em seu estúdio na rua do Ouvidor, 105, e prensados em Berlim pela Internacional Zonophone Co. O seu conjunto apresentava modinhas, lundus, tangos, valsas e dobrados. Deste conjunto de gravações, Isto é bom, um lundu de Xisto Bahia, ficou marcado como o primeiríssimo registro musical. 

Frederico ou Fred Figner, como era chamado, era filho de uma família judia. Nascido na Boêmia, província da atual República Tcheca, tendo emigrado ainda muito jovem para os Estados Unidos. Seu tino pro negócio se mostrou acertado, pois ao criar a Casa Edson e promover as gravações e a vendagem da música brasileira, dominou o mercado nacional fonográfico por cerca de trinta anos (Severiano: 2008; p. 58).

Foi na sua Casa Edson que foi feita, em 1916, a gravação histórica daquele que foi considerado o primeiro samba gravado: "Pelo Telefone". Mas, essa é uma outra grande história.

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CALDEIRA, Jorge. “O tcheco que deu samba”, In: História Viva. Ano I, n°1. São Paulo: Editora Duetto, Nov 2003.

SEVERIANO, Jairo. Uma história da música popular brasileira: das origens à modernidade. São Paulo: Editora 34, 2008.

(Monografia (parte) “SAMBA E MODERNIDADE - O samba como agente transformador na primeira metade do século XX” de 2010, de Francisco de Assis Furriel Gonçalves)

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Fred Figner, também é conhecido no meio espírita por "Irmão Jacob", por conta do livro "Voltei", ditado por ele, depois de sua morte, ao médium Francisco Cândido Xavier. Pra quem se interessa pelo assunto da vida futura, como eu, fica a dica de um grande romance.


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sexta-feira, 15 de março de 2013

Respingos


Briguei com o amor
Chutei aquarelas

Os respingos coloridos
me convenceram

Fiz as pazes


                           (Eliana Pichinine)

domingo, 10 de março de 2013

Angu com carne seca picada: culinária no blog do chico


A ideia de escrever sobre comida surgiu dias atrás num almoço com amigos e me foi sugerida pelo Rogério Santos, geólogo e entusiasta deste blog. A conversa começou quando decidíamos aonde ir comer. Sugeri um restaurante árabe, que serve além deste tipo de prato, comida mineira, feijoada entre outras. Disse que gostava daquele tempero e que, além disso, era barato. O Rogério é um cara gozador que adora piadas e que sempre atenta para coisas inusitadas como restaurante árabe que serve linguiça fina, torresmo e couve mineira e que tem como a mais saborosa iguaria um simples e delicioso pastel de carne. Bom, nem adiantou dizer a ele que chamamos o restaurante de árabe, porque o seu forte é a comida árabe e não pela exclusividade dessa mesa. 

Quando falava de como era o gosto caseiro da comida de lá, lembrei-me de alguns pratos que minha mãe fazia e que eram simples pela falta de grana, mas que se tornavam deliciosos por sua competência na cozinha e também por sua inventividade. Foi então que meu amigo, depois que descrevi um desses, sugeriu que eu escrevesse as receitas no Blog do Chico. Achei uma ótima ideia. Apesar da brincadeira, aqui estou, escrevendo sobre comida. 

Lá vai a receita: quando era criança, minha mãe fazia muito angu (ou polenta, como quiserem), por ser barato e por ser nutritivo e gostoso. D. Iolanda tinha a virtude da simplicidade na cozinha. Acredito que por isso conseguia fazer de um simples ovo frito ou de um refogado o prato principal, que vinha sempre embelezando o tradicional feijão-com-arroz. 

Em uma panela com água e um pouco de óleo de soja, cozinhava uma quantidade de farinha de milho (fubá). Mexia o fubá, desde a água fria até que ela esquentasse e a massa fosse se formando. Como ela fazia muitas vezes, o cheiro do angu era marcante e nós gostávamos porque ela fazia um angu mais consistente e não tão mole como é do gosto de muitos (como o angu à baiana). Como para obter mais consistência, o tempo era maior, o cozimento formava uma casca ao redor e no fundo da panela, que ficava um pouco queimada ou, às vezes, muito queimada (como minha mãe nunca queimou comida, “sapecava”, dizia ela). Essa casca ou raspa era disputada quase às tapas. Quando o angu começava a engrossar, ela adicionava algumas pitadas de sal. Não muito. Mamãe não gostava de salgar muito. 

Angu pronto, vamos para o seu acompanhamento, a carne seca. Bem, a carne seca daquela época é um capítulo à parte de tão diferente do que vemos hoje em dia nos mercados. Estou falando de uma época quando ainda se achava e se comprava, entre outros, manteiga em lata, vendida a varejo, “embrulhada” em papel-manteiga e café moído na hora, que levávamos para casa em sacos de papel pardo, quentinhos e cheirosos. 

A carne seca, sempre bem escolhida por meu pai (sim, era sempre ele quem escolhia a carne e outros tantos alimentos que comprava), tinha uma consistência firme. Era bem seca mesmo e também salgada. Minha mãe picava a carne em pequenos pedaços de mais ou menos dois centímetros quadrado, bem finos. Não preciso dizer que comíamos muitas vezes estes pedaços enquanto ela ainda os picava. 

Numa panela pequena punha um pouco de alho, sal e óleo. Mexia até que o alho dourasse um pouco. Então, adicionava a cebola picada e logo após a carne seca e refogava tudo. Quando a carne já estava devidamente refogada, completava com o tomate picado em cubos (sem sementes, pois não gostávamos) para que ele mantivesse um pouco de sua consistência. Pronto!

O refogado era posto sobre o angu, que em geral, era servido somente com arroz e feijão ou o que mais houvesse pra complementar. 



- Um dia, quando morava sozinho, cismei de fazer um angu. Como havia muito tempo que não fazia este prato, pus o fubá na água fervendo e empolou todo...

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Uma estrela no céu da sua boca

Uma estrela no céu
Um asterisco estelar no céu da sua boca
Cada lugar existe pra algo
Uma mina de ideias,
De vidas,
De sonhos

Juro que as estrelas sorriem para mim
Elas sabem de mim
Como sua boca que está sempre a dizer meu nome
Que está sempre pronta a algo ideal
Que sempre brilha quando canta


Assis Furriel


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