segunda-feira, 8 de agosto de 2011
Hoje não!
Hoje não vou querer fazer nada mais
Quero chegar em casa
beijar meus amores
retirar minhas roupas
todas, por dentro e por fora
me ver nu
me reconhecer e saber se sou eu mesmo – porque às vezes me esqueço no trabalho...
colocar aquela camisa furada, que é quase minha pele...
beber um copo d’água pura
calçar meus chinelos...
e não pensar em nada, nada, nada mais...
Por Nelson Marques
Visite o blog "Poetas bissextos" de Nelson Marques: http://poetasbissextos.blogspot.com/
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sábado, 6 de agosto de 2011
Reflexões pós-modernas
Interligar-se ou desligar-se? Eis a questão!
Por Katia Silva
O mundo atualmente vive uma explosão de novas tecnologias de informação e comunicação. A todo o momento temos a divulgação de novos aparelhos, novos instrumentos e novos formatos de distribuição da informação que supera a todas as outras antes utilizadas. Estamos conectados virtualmente a lugares e pessoas diversas. Para a geração que nasceu com essas novas tecnologias e vive essas constantes mudanças há uma naturalidade nessas novidades, quando que para gerações anteriores, parecem que as mudanças estão cada vez mais velozes, mal dando para se acostumar e adaptar com determinadas tecnologias, parece que automaticamente já temos outras, a seguir, as ultrapassando.
As redes sociais têm sido a grande base de comunicação entre as pessoas. Entre si elas já mostram suplantações e atualizações constantes, a fim de continuar ativas entre a sociedade virtual, que se mantém em contato com várias pessoas, acompanhando suas vidas e trocando informações num tempo e disponibilidades impossíveis se fossem de forma física, pessoalmente. Logo, o contato físico tem diminuído, transformando assim os relacionamentos pessoais e também profissionais frente à vida. São outros tipos de relacionamentos, formas distintas de contato e de acesso às informações.
A televisão e o rádio foram muitas vezes divinizados pelo alcance das informações, mas também execrados pelo seu poder manipulador, de certa maneira, na vida das pessoas e padronização. A internet, ao contrário, nos possibilita um acesso à informação de modo seletivo. Escolhemos o que queremos saber, seja pelos sites informativos e jornalísticos, seja pelos sites de busca que nos levam ao foco do que procuramos.
São novidades onde a adaptação se mostra importante para a sobrevivência nesse mundo globalizado e interligado virtualmente. No entanto, também devemos criticar essa mesma sociedade online quanto à perda de habilidades que estão desaparecendo. A diminuição do contato físico e a facilidade do encontro de informações estão transformando nossa maneira de viver o mundo e de estar nele. Corremos o risco de nos tornarmos mais duros, insensíveis frente ao outro, aumentando o egoísmo e a invisibilidade do outro em nossas vidas e desejos. A falta de paciência parece estar cada vez mais comum entre as pessoas. Temos lidado com outro de forma a atender nosso íntimo, onde as pessoas estão quase que sendo objetos para a finalização que somos nós apenas. O espetáculo tecnológico tem modificado nossas estruturas de viver socialmente, portanto, se mostra urgente prestarmos atenção para não sermos mais uma das peças desse mecanismo maquinário da vida, em seu formato tecnológico. Somos humanos e essa essência não pode ser esquecida, frente ao mundo do sistema, que tem virado quase que um ser entre nós.
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Resolvi postar e compartilhar com meu leitores esta reflexão que é bem a minha preocupação também sobre os tempos atuais os quais estamos vivendo. Esse texto se encontra originalmente postado em: http://palavrasquebrotam-katia.blogspot.com/2011/05/interliga-se-ou-desligar-se-eis-questao.html (blog da autora)
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terça-feira, 2 de agosto de 2011
O amor segundo Rosa
"(...) Diz-que-direi ao senhor o que nem tanto é sabido:
sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão,
o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja,
e vai, na idéia, querendo e ajudando; mas, quando é destino dado,
maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal,
carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas.
Amor desse, cresce primeiro; brota é depois. (...)"
In: ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 1ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006. p. 139.
No vídeo, Jonathans narra o reencontro de Riobaldo e Diadorim,
quando fala do amor, citado acima:
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domingo, 31 de julho de 2011
Morro Velho, o "menino de engenho"* de Milton Nascimento
Morro Velho (Milton Nascimento)
No sertão da minha terra, fazenda é o camarada que ao chão se deu
Fez a obrigação com força, parece até que tudo aquilo ali é seu
Só poder sentar no morro e ver tudo verdinho, lindo a crescer
Orgulhoso camarada, de viola em vez de enxada
Filho do branco e do preto, correndo pela estrada atrás de passarinho
Pela plantação adentro, crescendo os dois meninos, sempre pequeninos
Peixe bom dá no riacho de água tão limpinha, dá pro fundo ver
Orgulhoso camarada, conta histórias prá moçada
Filho do senhor vai embora, tempo de estudos na cidade grande
Parte, tem os olhos tristes, deixando o companheiro na estação distante
Não esqueça, amigo, eu vou voltar, some longe o trenzinho ao deus-dará
Quando volta já é outro, trouxe até sinhá mocinha prá apresentar
Linda como a luz da lua que em lugar nenhum rebrilha como lá
Já tem nome de doutor, e agora na fazenda é quem vai mandar
E seu velho camarada, já não brinca, mas trabalha.
(*) Menino de Engenho: romance de José Lins do Rego
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sábado, 30 de julho de 2011
Poesia de Cida
Fole
Abraçado no meu peito
em encaixe de aconchego
de mim não te soltavas
respondendo aos meus apelos.
Quando a pauta assim ditava
em meus braços te encolhias
e abafando suspiros loucos
dissimulavas que rias...
Se te abrias em sorriso largo
o meu colo também te recebia
em desvarios de acordes vários
inspiravas ternas melodias.
Chegou um dia,
-tudo passa
até a folia do vento
até a onda bravia-,
Teu fôlego em desacordo
atravessou o compasso
em súbita arritmia.
Da platéia,-em vaias solenes-
até hoje procuro abrigo
Teu abraço
soltou meus braços
que pendem, mesmo sem hastes
configurando o imenso vazio.
Em gritos roucos canto sozinha
"Je suis folle,folle,folle"!
para a Kátia Silva
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segunda-feira, 25 de julho de 2011
Poema de Adélia
Briga no beco
Encontrei meu marido às três horas da tarde
com uma loura oxidada.
Tomavam guaraná e riam, os desavergonhados.
Ataquei-os por trás com mão e palavras
que nunca suspeitei conhecesse.
Voaram três dentes e gritei, esmurrei-os e gritei,
gritei meu urro, a torrente de impropérios.
Ajuntou gente, escureceu o sol,
a poeira adensou como cortina.
Ele me pegava nos braços, nas pernas, na cintura,
sem me reter, peixe-piranha, bicho pior, fêmea-ofendida, uivava.
Gritei, gritei, gritei, até a cratera exaurir-se.
Qunado não pude mais fiquei rígida,
as mãos na garganta dele, nós dois petrificados,
eu sem tocar o chão. Quando abri os olhos,
as mulheres abriam alas, me tocando, me pedindo graças.
Desde então faço milagres.
Adélia Prado, do livro Bagagem, 1976
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domingo, 10 de julho de 2011
Vovó Amélia: uma história de amizade, escravidão e liberdade
E lá vinha ela! Devagar, mas firme. Com jeito altivo de quem, do alto de sua idade, carregava a própria experiência.
No quintal de nossa casa, bem ao lado do portão de entrada, sentava-se na cadeira que minha mãe dispunha para as visitas. Ali, naquele pequeno espaço, muitos se revezavam em longos papos. Um desses amigos era ela, a Vovó Amélia. Naquela época, já contava mais de cem anos. Os mais velhos diziam que havia sido filha de escravos nos tempos da escravidão. Aquela história de escravidão era o máximo e para nós crianças aquilo nos enchia de imaginação e fantasia.
Lembro que minha mãe não admitia que ninguém fumasse dentro de casa. Mas, Vovó Amélia chegava, sentava-se naquela cadeira e logo acendia seu cachimbo que gostava de pitar. Minha mãe não dizia nada. Ela podia, pois além de ser uma visita, era especial e aquele era um velho costume seu. Ela era muito querida pelos meus pais e pelos meus avós, que moravam na casa ao lado e dividiam o mesmo quintal conosco. Vovó Amélia era uma espécie de conselheira da família e também contava muitas histórias.
A última vez que a vi, foi em sua cama, adoentada. Já não podia mais se levantar. Lembro-me de pedir sua benção e beijar sua mão. Naquele tempo ainda era assim.
Era uma figura marcante, quase mítica, a centenária Amélia!
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Meu professor de História da África Edson Borges disse para nossa turma uma coisa que nunca mais vou esquecer. Ele dizia que não houve escravos e nunca haverá. O que houve foram indivíduos iguais a todos os outros que foram escravizados à força. Escravo é uma categoria que acaba por resumir uma série de outros conceitos, como objeto, por exemplo, que o escravizador algoz utiliza como quer, decidindo, inclusive, sobre sua vida e sua morte. Embora já tivesse essa visão, foi muito importante ouvir dele, que é negro, militante das causas dos negros e que tem o poder do uso da palavra, como um formador de opinião.
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