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Reprodução bem aproximada do logotipo |
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Parte da turma, a partir da esquerda: Zé, Jorginho, Tom, Assis, Luiz e Mirinho num daqueles churrascos. |
Duro e sem emprego, um dia o Zé Renato virou e falou: _vou abrir um bar. Pensamos, “que legal, vamos ter um point e dar um sossego pra Tia Carmen e pro Tio Jorge”, respectivamente mãe e padrasto do Zé. Foi mais ou menos o que aconteceu, embora duvide muito que D. Carmen ou Seu Jorge (mãezona e paizão) se incomodassem conosco.
Quando, enfim, o Zé arrendou o bar, ou melhor, o boteco, ou ainda, o pé-sujo, fomos até lá pra ver. Nosso “point” parecia ter saído dos anos 50/60, direto do túnel do tempo. O bar tinha aquele estilo pequeno com balcão enorme. Aqueles do tipo português, enorme, revestido de fórmica com listras coloridas, formando uma espécie de S que ocupava quase todo o pequeno espaço do salão, ou melhor, salinha. Beleza! De dia, o Zé ralava com seu fiel escudeiro Aécio, servindo rango pra uma clientela que já frequentava o local e à noite, passávamos por lá pra bater papo e, obviamente, tocar algo despretensioso: um voz&violão e uma caixa de fósforo. O fato é que um público que costumava chegar pra uma cerveja de fim de expediente e mais uns alunos que estudavam nos dois colégios colados ao bar chegavam e ficavam curtindo a gente.
O Zé com seu faro comercial, mais uma vez teve um insight e sugeriu: Por que não plugamos isso tudo, organizamos um setlist e mandamos ver. É nossa hora de curtirmos um som com público e tudo mais. A coisa que era feita de qualquer modo, precisou de organização e um pouco mais de seriedade. Logo, ficamos somente Luiz, Mirinho e eu com a incumbência, porque, apesar de todos fazermos um barulho bacana, os demais acabaram roendo a corda. Então, nasceu ali o trio formado pelo violão do Luiz, a percussão e o backing do Mirinho, a minha voz e a pandeirola que eu também fazia. A coisa pegou de um jeito tal, que demorou muito pouco tempo, talvez um mês ou dois pro Zé parar tudo pra uma boa reforma. O público não conseguia se acomodar, porque o balcão ocupava mais da metade do bar e a banda, o resto. O público que se conformasse com a calçada! Ora, sejamos razoáveis, o público merece um pouco mais de carinho, né?
Pois bem, paramos um tempo. A reforma liderada pelo Zé e capitaneada pelo Seu Jorge, mestre de obras dos melhores, avançou com uma velocidade que só perdia para a pressa de um público de amigos que não queria esperar muito pela volta. Afinal, naquele tempo, o bairro estava escasso de lugares com boa música, bebida e amigos. Como, aliás, ainda hoje é. Diga-se de passagem, São Cristóvão nunca teve essa vocação musical.
Logo, passamos a discutir todos juntos a cara que teria aquele novo espaço (sim, porque nos sentíamos todos meio donos do pedaço). O bar tinha um nome, que realmente não consigo me lembrar direito. Era um nome meio pomposo e que não tinha nada a ver com os nossos propósitos (acho que era Apollo). Estava difícil decidir por um novo nome. O jeito foi avançar com as obras e deixar pra depois o batismo. Quando decidimos pela cor, o nome apareceu. Então, temos que explicar primeiramente o porquê da cor. O bar era um local sem cor, sem estilo, um design decadente e velho. Pra se ter uma ideia, do lado de dentro do balcão havia umas grades que serviam de assoalhos e que dava aos que serviam uma elevação em relação ao público atendido porque o balcão era alto e volumoso. Era uma coisa antiga. Isso tudo era estranho pra uma turma mais jovem e descolada. Queríamos também que as meninas aparecessem e não somente os bebuns de final de turno. Éramos também um grupo de jovens negros, alguns grandes e fortes outros nem tão negros, nem tão fortes, como eu. Só marmanjos! Isso assustava um pouco os brotinhos, pensávamos. Alguém, que não me lembro direito quem, acho que foi o Bira, o mais velho dos não sei quantos (eu sei) irmãos do Zé, sugeriu com coragem; _Pinta de rosa. Vai chamar a atenção de todos. _ Pensamos que poderia mesmo suavizar o visual e atrair mais gente sem medo. _Mais, caramba, rosa é sacanagem. - Afinal, a cor-de-rosa era uma cor muito feminina e, apesar do pessoal não ter nenhum preconceito, achamos que seria uma cor muito enjoativa. Precisávamos de uma composição. Alguém falou: por que não mistura com preto? Vai contrabalançar. Beleza. Gostamos. Resolveu-se que todo o teto seria pintado de preto, descendo pelas paredes, pelo menos uns 40 centímetros. Daí o próprio Zé decretou: _Vai se chamar Pink Bar. O Bira, que era bom de desenho, bolou o logotipo que foi pintado nas duas paredes laterais do salão em preto sobre o rosa. Resumo da ópera (ou melhor, da obra). A retirada daquele dinossauro lusitano do meio do espaço resultou numa ampla área que não podíamos perder mais. O Zé optou por um balcão mínimo, de alvenaria coberto por uma pedra simples e bonita de mármore. Um balcão slim. Pôs um piso moderninho e o bar comportou umas dez ou doze mesas no máximo. Pouco? Sim. Mas, diante das três ou quatro de antes, pra nós era como um Canecão. O Zé, muito esperto e de bom gosto, conseguiu gastar pouco e deixar o lugar aconchegante com uma luz indireta bem bacana. Cool o bastante, para agradar um público mais exigente e ainda continuava servindo os peões (que estranharam um pouco, mas continuavam com fome) durante o dia com a comida que o valente cozinheiro (que eu não me lembro quem era) preparava, sempre com o auxílio luxuoso do nobre Aécio, nosso amigo de infância.
A reforma deve ter durado um mês ou um pouco mais. Foi rápido, porque o bar tinha que faturar. Enquanto isso, o trio rebuscava seu repertório e ensaiava para uma estréia de gala. Fizemos um pequeno estandarte, de fundo preto (pra sobressair sobre o rosa), tudo combinando. Éramos fashion agora. Precisávamos pensar em tudo.
Chegou o dia da reinauguração do bar do Zé e a inauguração de um novo espaço cultural-musical no pedaço. Todos nós tínhamos muitos amigos por ali. Afinal, nascemos no bairro e já fazíamos música de algum modo. Durante a febre do RockBR dos anos 80, o bairro recebeu uma chuva de bandinhas de rock que se apresentavam nas festas dos clubes, nas casas de amigos e, principalmente, nas festas de rua, como as dos meses do São João. Havia uma galera grande que gostava e que estava por ali meio de bobeira. A novidade é que o espaço seria reservado para a boa MPB e no máximo alguns rocks mais cabeças da safra de bandas brasileiras. Muita gente dessa galera chegava para canjas. Amigos baixistas, guitarristas e bateristas sempre apareciam, menos vocalistas, o que me obrigava a me esgoelar horas. Nosso setlist continha mais de 70 músicas, e o som rolava até a madrugada, entremeada com alguns minutos de música ambiente de primeira.
Estreamos com casa e calçada cheias. As mesas eram todas ocupadas com turmas de vários lugares. Gente que trabalhava ali por perto trazia pessoas de outros bairros; casais, turmas de amigos, as nossas famílias. O pessoal que chegava mais tarde estacionava na rua, em frente ao bar, que era aberto em toda a sua largura e continuava sentado em seus carros ou motos, formando uma pequena massa do lado de fora. Alguns, mais chegados, improvisavam churrascos na frente e consumiam a cerveja do bar.
Ganhei uma fita K7 de uma amiga de trabalho do disco Pegadas do Zé Renato (cantor), que eu adorava. Levei para o Zé Renato (do bar) e ele também curtiu muito e tocava sempre nos intervalos dos sets. Aquela fitinha marcou também aqueles momentos como uma trilha sonora. Hoje em dia, sempre que ouço o CD, lembro do bar e do Zé (o do bar). Tenho o K7 guardado comigo até hoje.
Costumava passar por lá também durante a semana, quando voltava do trabalho. Ficávamos pensando em novidades para a sexta. Pensando em músicas novas e impactantes. Uma vez, estava chateado com algo que não me lembro. O dia não foi bom mesmo. Quando cheguei, não demorou muito, uma corda do violão arrebentou e enquanto o Luiz trocava por uma outra nova, eu resolvi cantar à capela, somente com a marcação do Mirinho, uma música do Martinho da Vila. Era "Disritmia". Foi um sucesso! Outra vez, resolvemos apresentar "O Caçador" do disco do tênis do Lô Borges. Levávamos algumas coisas bem diferentes e inesperadas, como "Minha Superstar" do Erasmo. A mulherada adorava, porque o refrão romântico dizia: "Ela é minha superstar, mulher de brilho farto, que eu sempre hei de ver brilhar no palco do meu quarto". Isso era pegajoso. Pegava fácil e era bom de cantar.
O Zé adorava algumas coisas e forçava a barra pra gente tocar. Infelizmente, algumas não conseguimos levar, como "Não se apague essa noite", também do Lô, que ele adorava e cantava como se estivesse ajoelhado à frente da amada, bem dramático: "Por favor não se apague essa noite, você tem que provar do meu sangue".
Costumava passar por lá também durante a semana, quando voltava do trabalho. Ficávamos pensando em novidades para a sexta. Pensando em músicas novas e impactantes. Uma vez, estava chateado com algo que não me lembro. O dia não foi bom mesmo. Quando cheguei, não demorou muito, uma corda do violão arrebentou e enquanto o Luiz trocava por uma outra nova, eu resolvi cantar à capela, somente com a marcação do Mirinho, uma música do Martinho da Vila. Era "Disritmia". Foi um sucesso! Outra vez, resolvemos apresentar "O Caçador" do disco do tênis do Lô Borges. Levávamos algumas coisas bem diferentes e inesperadas, como "Minha Superstar" do Erasmo. A mulherada adorava, porque o refrão romântico dizia: "Ela é minha superstar, mulher de brilho farto, que eu sempre hei de ver brilhar no palco do meu quarto". Isso era pegajoso. Pegava fácil e era bom de cantar.
O Zé adorava algumas coisas e forçava a barra pra gente tocar. Infelizmente, algumas não conseguimos levar, como "Não se apague essa noite", também do Lô, que ele adorava e cantava como se estivesse ajoelhado à frente da amada, bem dramático: "Por favor não se apague essa noite, você tem que provar do meu sangue".
No repertório, uma seleção mais que eclética: O pessoal do Clube da Esquina, começando pelo Milton, Beto Guedes, Lô Borges, Flávio. O Rei Roberto e seu amigo Erasmo. Tim Maia, Hyldon, Cassia Eller, Chico Buarque, Djavan (o nosso preferido), Caetano, Legião, João Bosco, Gonzaguinha, Kid Abelha, Paralamas, Ivan Lins, Barão, Luiz Melodia, Martinho da Vila, Bossa Nova, Gilberto Gil etc. Gostávamos de tocar muita coisa tipo lado B para sair um pouco do comum. Para os mais novos, lado B, remete ao lado “menos importante” do disco de vinil – LP que há anos atrás reinava absoluto.
Essa experiência me marcou demais. Foi uma das coisas que fiz na vida que mais me deu prazer. Pelo menos dois anos cantando publicamente e me descobrindo capaz de fazê-lo. E mais, a galera gostava e eu me descobria ali um cantor profissional, porque era num bar que recebia um público que pagava, embora não cobrássemos do Zé (se cobrássemos não duraria dois anos). Formamos uma verdadeira confraria, irmanados sob um único objetivo: a devoção pela música e pela amizade.
Em pouco tempo criamos um point mais que bem sucedido pela popularidade. O som rolava todas as sextas às 8 da noite e ía até onde aguentavam as nossas forças e nosso tesão: quase sempre às 2h da manhã e durou de 1993 a 1994. Atualmente, em época de super exposição, sinto não ter sequer uma fotografia da gente no bar ou uma fitinha cassete que seja. Ficou somente na memória de quem viveu aqueles momentos. Foi um grande barato e que devemos ao empreendedorismo do Zé Renato, meu grande amigo que se foi e a quem dedico a música “Clube da Esquina 2” que ele gostava muito e que me remete a um desejo de renovação, porquanto, apesar do tempo não parar, os sonhos nunca envelhecem. Perdoem-me o lugar comum, mais é a mais pura verdade.
Clube da Esquina 2
Pink Bar
Rua São Januário, 311/loja - São Cristóvão
Proprietário: José Renato Farias
Happy Hour: MPB ao vivo
Assis – Voz
Luiz Claudio – Violão
Mirinho – Percussão
Canjas dos amigos
Todas as sextas-feiras a partir das 20h.
Couvert opcional (sempre doado ao bar)
Cerveja gelada, bebidas diversas
Petiscos variados bem servidos
Rua São Januário, 311/loja - São Cristóvão
Proprietário: José Renato Farias
Happy Hour: MPB ao vivo
Assis – Voz
Luiz Claudio – Violão
Mirinho – Percussão
Canjas dos amigos
Todas as sextas-feiras a partir das 20h.
Couvert opcional (sempre doado ao bar)
Cerveja gelada, bebidas diversas
Petiscos variados bem servidos