sábado, 23 de outubro de 2010

Viva o Rei Pelé!





Hoje, Pelé completa 70 anos de vida. Considerado o maior jogador de futebol de todos os tempos, o "Atleta do século" não teve até hoje alguém que tenha chegado perto de sua majestade. Foi e é a mais perfeita tradução da arte no futebol. Parabéns deste humilde súdito pelo seu aniversário. Viva o Rei! Viva o Rei!!!


Veja alguns gols de sua magestade!



Para quem quiser conhecer melhor a arte de Pelé, fica a sugestão do seu DVD "Pelé Eterno". É fantástico!

EBTG

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O Futebol de Chico Buarque na análise de um fã



A estética maravilhosa do futebol brasileiro pode ser contemplada na letra de O Futebol, música de Chico Buarque, compositor apaixonado por esse esporte que apresenta várias formas de encantamento. O futebol é um
jogo, mas quando bem jogado é arte. E é desse futebol de excelência que quero falar. Qualquer fã apaixonado pelo esporte da bola no pé percebe essa beleza, ou mesmo a espera, ansiosamente, desde o apito inicial. O bom torcedor quer a vitória sempre, mas se possível com arte, pois a vitória é obrigação e a arte é o deleite, é o prazer.

Em O Futebol, Chico dá uma de Armando Nogueira da música e traduz, maravilhosamente, a capacidade que o craque brasileiro tem de fazer do esporte uma arte também. O autor faz uma homenagem aos seus craques preferidos (dos tempos em que ainda sonhava em ser um), imaginando uma linha de passe, que não chegou a existir no seu conjunto, entre Mané Garrincha, Didi, Pelé, Pagão e Canhoteiro.

Na música, Chico confessa os “desejos de craque”, como quando no início, diz que para estufar o filó (rede), num chute sonhado, só se fosse o Rei (Pelé – Edson Arantes do Nascimento). Diz que uma “firula exata” (algo como um drible, um jogo de corpo, um vai, mas não vai) mereceria uma placa exposta em um museu, como uma pintura. Em: “Pintura mais fundamental que um chute a gol com precisão de flecha e folha seca”, Chico faz uma homenagem a Didi (Valdir Pereira), craque da seleção campeã de 1958, que criou o famoso chute batizado de “folha seca”. A razão do nome é que o chute tinha o efeito de percorrer uma trajetória e cair, repentinamente, como uma folha seca. Quando se refere a Garrincha (Manoel Francisco dos Santos), o autor usa a imagem de um parafuso, lembrando que o Mané gostava de girar com a bola ao redor do seu marcador (um João qualquer) pela lateral do campo e quando ameaçava uma finta (drible) que não se concretizava. Canhoteiro (José Ribamar de Oliveira) era ponta esquerda de grande habilidade. Foi craque do São Paulo nos anos 1950, fazendo parte também da seleção brasileira e só não foi à copa de 1958 pelo enorme medo de avião que tinha. Chico Buarque nunca o esqueceu. Pagão (Paulo César Araújo), outro craque da época, também era admirado pelo menino Chico, era centroavante e jogou ao lado de Pelé e Pepe no Santos.

O artista vê o gramado como um tabuleiro, imaginando uma série de desenhos geométricos. Assim, se vê na “vaga geometria”, o corredor, uma paralela rente a linha lateral (quase impossível), como se o craque encontrasse espaço aonde não havia. Revela o sentimento do homem-gol (o artilheiro) que, imaginariamente, rasga o chão e depois o costura, num zig-zag de dribles até o tento final. Descreve a parábola de um homem comum como um “chapéu” (ou “lençol”) e refere-se aos estádios como coliseus modernos onde a galera delira diante de movimentos majestosos.

O futebol precisa de craques dentro das quatro linhas, mas precisa também de outros craques para que fora delas façam a resenha com a mesma majestade. O esporte perdeu o menino Chico, mas ganhou um craque-poeta; para nossa felicidade!

O Futebol (Chico Buarque)


Para estufar esse filó/ Como eu sonhei/ Só se eu fosse o Rei/ Para tirar efeito igual ao jogador/ Qual compositor/ Para aplicar uma firula exata/ Que pintor/ Para emplacar em que pinacoteca, nega/
Pintura mais fundamental/ Que um chute a gol/ Com precisão de flecha e folha seca/
Parafusar algum joão na lateral/ Não quando é fatal/ Para avisar a finta enfim/ Quando não é
Sim no contrapé/ Para avançar na vaga geometria, o corredor/ Na paralela do impossível, minha nega
No sentimento diagonal do homem-gol/ Rasgando o chão e costurando a linha/ Parábola do homem comum
Roçando o céu/ Um senhor chapéu/ Para delírio das gerais no coliseu/ Mas Que rei sou eu
Para anular a natural catimba do cantor/ Paralisando esta canção capenga, nega/ Para captar o visual
de um chute a gol/ E a emoção da idéia quando ginga/ (Para Mané/  para Didi para Mané/ Mané para Didi/ para Mané/ Para Didi para Pagão para Pelé e Canhoteiro)



segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Afinal, somos todos Humanos

A unidade do gênero humano é uma idéia filosófica, religiosa e científica. De fato, o entendimento da natureza do gênero humano, assim como a sua unidade, passa por essas três possibilidades de conhecimento. São, portanto, a filosofia, a religião e a ciência, formas pelas quais o homem busca entender a si mesmo. Logo, a razão, a fé e o empirismo farão parte de todo esforço desse entendimento.

Desde a antiguidade, mais especificamente a partir de Sócrates, os filósofos buscam entender o que vem a ser o homem: sua natureza, origem e destino. O “conhece a ti mesmo” foi bem o início dessa discussão. Embora não concorde com a crença panteísta dos estóicos, é fato que a negação da escravidão já reconhecida pela “antiga Stoa” (Bielefeldt, 146)1, traz luz para as evidências de uma igualdade entre os homens. O iluminismo do século XVIII também corroborou para um direito racional, uma jurisprudência moderna que herdaria a idéia do direito natural, observado desde a antiguidade.

Quanto à idéia religiosa do tema, é bom salientar que cristianismo não é, necessariamente, o Cristo, mas sim o que fizeram e fazem dos seus ensinamentos. Quero dizer que os homens traduzem muito convenientemente as palavras do Evangelho. O cristianismo que Lãs Casas chamava, em sua época, de “imperialismo cristão” (Bielefeldt, 146)2, não considera ou traduz conceitos básicos como o “amar ao próximo como a si mesmo”, máxima cristã que por si só resume a igualdade de direitos entre os homens, visto que ninguém, desse modo, faria a outro qualquer mal que não quisesse para si próprio.

A ciência já provou (apesar de correntes racistas do século XIX terem tentado o contrário) que todos os homens são iguais sob o ponto de vista da genética. Portanto, “raça”, cor, etnia etc. não constituem fatores de diferenciação quanto ao gênero humano. Apesar das alteridades, somos todos humanos!



1 Do livro “Filosofia dos Direitos Humanos” de Heiner Bielefeldt.
2 Idem

sábado, 16 de outubro de 2010

Eu sei mas não devia

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos
e a não ter outra vista que não as janelas ao redor.
E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender cedo a luz.
E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar o café correndo porque está atrasado.
A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá pra almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita .
E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro,
para ter com que pagar nas filas com que se cobra.
A gente se acostuma à poluição.
As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
A luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias de água potável.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer.
Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui,
um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se a praia está contaminada a gente molha só os pés e sua no resto do corpo.
Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se o trabalho está duro a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo
e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida.
Que aos poucos se gasta, e que gasta de tanto se acostumar, e se perde de si mesma.

Texto de Marina Colassanti

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O pequeno cantor

O cantor aos 4 anos
Minha mãe morria de medo que eu me tornasse um cantor de sucesso. Achava mesmo que eu tinha talento e que, como tantos outros que foram pobres e alcançaram a fama, poderia ficar famoso, rico e ir embora. Algo como um “Roberto Carlos de São Cristóvão”. Talvez por isso, não tenha me dado muita força; pra não dizer força alguma para ser um músico. Triste sina: minha primeira fã me blindou para o estrelato.

Vai entender coração de mãe!

Minha mãe diz que eu cantava concentrado, desligado de tudo. Cantava pra mim mesmo. Ela fala que se algo me chamasse a atenção eu parava imediatamente de cantar. Era como se algum encanto fosse quebrado.

Eu gostava de ouvir desde o iê-iê-iê da Jovem Guarda até a excelência de Chico Buarque, passando por sambas de Martinho da Vila. Deste último, destaco “Quem é do mar não enjoa”, sucesso de 69, decoradíssimo e cantado sempre nas reuniões de família quando tínhamos a visita do Zé Carlos, amigo e violeiro que adorava acompanhar aquele menininho cantor: “Quem tiver mulher bonita/ Traga presa na corrente/ Eu também já tive a minha/ Mas perdi num samba quente...”. Do “Rei”, cantei tudo daqueles anos 60. Era o meu grande ídolo.

Porém, apesar do rock’n’roll e do samba, o que me fez “viajar” na música foram os versos e a melodia de "Carolina". O meu xará (Buarque de Holanda), então com vinte e poucos anos, fazia a minha cabeça com: “lá fora, amor/ Uma rosa nasceu/ Todo mundo sambou/ Uma estrela caiu/ Eu bem que mostrei sorrindo/ Pela janela, ói que lindo/ Mas Carolina não viu”. É a primeira música que eu me lembro de ter cantado inteiramente letra e melodia.

Nessa época, 1967, eu tinha quatro anos e estive internado para uma cirurgia. O hospital era o Geral de Bonsucesso. Tive algumas complicações e a minha internação foi mais demorada que o esperado. O que parecia ser uma tristeza para os adultos da família, tornou-se uma enorme aventura para o menino artista que fugia da ala infantil para apresentações gratuitas na ala dos adultos, encantados com o repertório recheado de sucessos, cujo principal era sempre “Carolina”. Meu pai ficava irado ao saber das minhas fugas para os lados dos grandes, sem que fossem notadas pelos enfermeiros. Logo, era um grande sucesso ou “bom sucesso” daquele hospital. Todos sabiam do canarinho que se hospedava por lá. Acho que a partir daí, o medo de minha mãe já era bem compreensível.


Carolina (Chico Buarque de Hollanda/1967)


Carolina/ Nos seus olhos fundos/ Guarda tanta dor/ A dor de todo esse mundo/ Eu já lhe expliquei que não vai dar/ Seu pranto não vai nada mudar/ Eu já convidei para dançar/ É hora, já sei, de aproveitar/ Lá fora, amor/ Uma rosa nasceu/ Todo mundo sambou/ Uma estrela caiu/ Eu bem que mostrei sorrindo/ Pela janela, ói que lindo/
Mas Carolina não viu

Carolina/ Nos seus olhos tristes/ Guarda tanto amor/ O amor que já não existe/ Eu bem que avisei, vai acabar/ De tudo lhe dei para aceitar/ Mil versos cantei pra lhe agradar/ Agora não sei como explicar/ Lá fora, amor/ Uma rosa morreu/ Uma festa acabou/ Nosso barco partiu/ Eu bem que mostrei a ela/ O tempo passou na janela/
Só Carolina não viu

O velho pequeno cantor e sua musa



O compositor



sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Os Direitos Humanos no Brasil

        Os Direitos Humanos no Brasil ainda precisam ser, de fato, implementados. Diferente das sociedades americana e francesa que foram moldadas a partir de uma observação dos direitos universais do homem, pensando a nação a partir da promoção do indivíduo, o Brasil apresenta uma história completamente oposta, na qual o poder de poucos sempre impôs o seu jugo sobre a grande maioria impotente. Uma sociedade desigual, na qual a exploração do homem pelo homem foi e continua sendo a marca mais triste de nossa história.
        Mesmo com a chamada Constituição Cidadã de 1988, após mais de vinte anos de autoritarismo militar, a luta pela cidadania é um esforço diário neste país. A partir da constatação de Caetano Veloso em “O Estrangeiro”, música na qual a ordem das coisas é ditada pelo “macho adulto branco sempre no comando”, pode-se concluir como deve ser a vida das mulheres, das crianças e dos negros, assim como as de tantas outras minorias. A retórica sobre a igualdade entre os homens e a questão da cidadania não faz com que, de fato, a sua consagração aconteça naturalmente entre os indivíduos; e mesmo a busca legal por esses direitos, junto ao Estado, é motivo de muito suor. O assunto “Direitos Humanos”, invariavelmente, é objeto de críticas e desconfianças por grande parte da população que, mal informada, não percebe que ela mesma é vítima da falta desses direitos.
        Apesar de avançar bastante quanto à legislação, o Brasil ainda está longe de prover esses direitos aos indivíduos, protegendo-os de toda sorte de violência como as torturas, o excesso da força policial, as execuções sumárias, como as do “massacre do Carandirú” em 1992, considerada a maior violação dos Direitos Humanos na história recente do país, no qual cento e onze detentos foram brutalmente assassinados pela polícia, representante do Estado.
        Se acordasse de um sonho revolucionário francês, ficaria catatônico diante de tanta bestialidade após mais de duzentos anos.