Era de telhado e tramelas a casa em que nasci e cresci.
Frágil como a de palha dos “três porquinhos” e forte como a construída sobre a rocha de Jesus, era ali que vivi meus anos mais intensos e inspiradores. Foi lá que adquiri subsídios para nortear minha vida, quase nunca tão reta, porém cheia de desejos de correção no bem.
A vida, apesar das dificuldades, era séria, mas também mágica aos olhos de uma criança que sonha. As tramelas estavam em muitas casas da vizinhança e fechavam com a autoridade que lhes cabiam e ai de um intruso que tentasse corrompe-las. Não me lembro de nenhum que tenha tentado, a não ser numa emergência qualquer. Um dia meu pai teve que arrombar a janela do nosso quarto para entrar porque à noite, uma vela que estava acesa em cima do nosso guarda-roupas acabou por incendiá-lo. Mas, logo nosso super-herói nos salvou a todos devidamente.
O que mais me agradava em nossa casa de telhado era poder participar dos assuntos dos adultos à noite, quando já estávamos deitados pra dormir. Neste tipo de casa as paredes dos ambientes vão até uma certa altura e o telhado cobre toda a casa, deixando assim espaços abertos por cima das divisórias dos cômodos. Aqueles ruídos humanos noturnos hoje me soam como música de ninar. Vinham das pessoas que mais amo na vida; as pessoas que forjaram meu caráter, dentro de um ensino e uma prática baseados no Evangelho de Jesus, segundo a Doutrina Espírita. Aliás, a religião da família é uma outra história que não dá pra dissociar da história que conto, pois fez parte da família desde que me entendo por gente. Era comum nos dias de reunião pública na Casa de Jesus (Centro que frequentávamos e frequento até hoje), “continuarmos” a reunião na caminhada de volta pra casa e na cozinha de minha avó, enquanto tomávamos o seu café mineiro, discutindo mais sobre o tema da noite.

O telhado também proporcionava um verdadeiro teatro de sombras às avessas. Na escuridão total da noite, a pouca luz que vinha de fora ou da própria lua, quando havia as cheias, enchia as paredes de imagens abstratas, através das frestas das velhas telhas, que eram imediatamente traduzidas em monstros e fantasmas dos mais diversos.
Como é rica a imaginação das crianças. Vida pobre, vida feliz. A felicidade decididamente não depende da riqueza necessariamente. Ela é uma conquista e um desejo que se transforma a partir de uma vivência especialmente boa.
Como é rica a imaginação das crianças. Vida pobre, vida feliz. A felicidade decididamente não depende da riqueza necessariamente. Ela é uma conquista e um desejo que se transforma a partir de uma vivência especialmente boa.
Saudades dos que se foram...